quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Felicidade


A pedido do Roger, vou fazer algumas considerações sobre o tal Luiz Felipe Pondé, que ele mencionou como adequado para trabalhar o tema da felicidade humana, quando mencionei que me sentia satisfeito com minha fé, etc etc etc.
            Vi alguns vídeos do dito-cujo, um deles sugerido pelo próprio Roger, e penso ter chegado a uma conclusão provisória sobre o pensamento desse filósofo (não reparem no sobrenome, ele é brasileiro).
            Pondé tem várias ideias que circundam o tema “felicidade”, abordando aspectos históricos e filosóficos a respeito dessa palavra, dessa ideia, dessa prática. Descobri que já tinha visto um livro dele em Curitiba em certa ocasião, só não o comprando por causa do preço, embora o título fosse bastante peculiar: “Contra um Mundo Melhor”.
            Nesse livro e em vários outros, o filósofo discute seu principal conceito, usado para definir o mundo atual, ou, de maneira mais categórica, o mundo após 1968: o mundo da “tirania da felicidade”. Esse termo caracteriza uma série de condições, principalmente, econômicas e culturais, forjadas para que as pessoas se sintam pressionadas a buscar a felicidade constante. Para abordar com mais plasticidade essa ideia, Pondé usa outros autores consagrados, como Shopenhauer, Kirkegaard e Epicuro, para citar apenas alguns.
            De maneira geral, acho suas considerações bem colocadas. Entretanto, só posso dizer que elas são incompletas. Ao citar Kirkegaard, Pondé menciona os quatro meios de se livrar da angústia (momento em que a pessoa percebe que, com ou sem Deus, a vida não faz sentido), a saber:
1                .      Estágio estético: escapar da angústia sentindo coisas;
2                .      Estágio ético: fazer o papel de “bom”, tornar-se um “cara legal”;
3                .      Estágios religiosos (2):
a.       Seguir os preceitos religiosos cegamente;
b.      Desistir das anteriores e apostar em Deus.
Faltou lembrar que as pessoas podem passar por experiências anedóticas (isto é, particulares e não-falseáveis) e, assim, superar a angústia por uma “revelação”, uma experiência tão marcante que dá uma resposta satisfatória à pessoa. Eu diria que eu me encaixo em algum lugar entre a 3.b e a 2, mas confesso que minhas crises de angústia não são particularmente longas e, de maneira particular, a felicidade não é minha tirana, mas antes, minha visitante.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O curso da vida


Quatro anos são passados
A julgar pelo cantor
De cujos passos, contados
Vem o som desolador:
Um compasso ritmado
Não sei dizer se de soprano
Ou de um tenor.

É um som peculiar
De timbre único
E é de se esperar
Que mesmo sem causar júbilo
Seja deveras apreciável
Pois, à sua maneira
Faz do velho, memorável
E do novo, surpresa.

Digo-lhes, leitores
Que este velho colega
Lembra-me de muitas dores
Algumas numa bodega
A refletir demasiado sobre a vida
Outras em casa, a pensar numa rapariga.

Quatro longos anos...
Anos de puberdade tardia
Quatro anos levianos
Anos de inédita rebeldia
De singulares fracassos
De sonhos devassos
E, ainda assim, anos vivos
Brindados com valiosos amigos.

Um período singular
Embora aos olhos do Tempo
Seja mais que comum notar
Relatos de singular monotonia de eventos
Até que, em uma eventualidade
O período acaba, deixando saudades.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Uma certa reflexão



 Hoje, a conselho de uma professora de sociologia, entrei em contato com o pensamento de um filósofo esloveno chamado Slavoj Žižek (pronuncia-se “Slavoz Jijek”, mais ou menos). Digo filósofo por que as denominações “sociólogo”, “crítico literário” ou alguma outra soariam muito limitadas para seu trabalho. Curiosamente, como eu me lembrei há algumas horas, meu professor de filosofia do 3º ano do Ensino Médio fez um comentário sobre o dito-cujo em certa aula em 2008 (não me perguntem por que eu lembro disso).
De toda forma, achei o pensamento dele interessante – para usar um termo neutro – e, talvez mais importante, bastante incisivo. Para efeitos comparativos, imagino que Nietzsche discursaria de maneira semelhante se fosse entrevistado.
Não me aprofundei a respeito de suas ideias, mas certo trecho de uma entrevista sua me deixou bastante reflexivo. Em dado momento, o entrevistador comenta sobre a existência de um filme (não me lembro o nome) em que um artista ficava preso em uma torre de marfim, símbolo de um afastamento da realidade. Žižek interrompe de pronto, com uma consideração que achei bem engraçada: “A verdadeira torre de marfim é Paulo Coelho.”.
Logo em seguida explica que é perigoso fugir da realidade, ainda mais quando se toma por parâmetro um ser humano envolto m pseudomitificação espiritual. Como ele mesmo diz, por isso e por outras razões é que poetas são perigosos, no sentido de que eles possuem facilidade em instigar ou enterrar ideias, sem necessariamente engajar-se politicamente.
Parece-me que essa é uma verdade dolorosa e não posso deixar de pensar que doravante escrever poemas não será mais a mesma coisa para mim. A partir de hoje,  pensarei com mais cuidado a respeito do escrevo.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A Terra


             Aparentemente imóvel, como de praxe, a terra prossegue sua jornada mais uma vez, em mais um dia. Quantos já se passaram? Não se recorda, mas lembra vagamente de tempos mais violentos, épocas em que um espectador qualquer seria capaz de ver rios de lava na superfície. Nessa época, um ser humano poderia usar a pobre comparação de lágrimas de sangue que o planeta deixava escorrer pela face. Se havia algo próximo de infância para a terra, havia sido esse tempo.
- De fato, a metáfora das lágrimas é inapropriada. – pensou. Afinal de contas, tristeza era muito pouco para capturar o momento. Mas é compreensível essa má interpretação dos fatos vinda de um animal com tão pouca informação.
            Primeiramente, há de se considerar que os humanos não entendem o que é estar conectado a tantos lugares ao mesmo tempo – e há tanto tempo, diga-se de passagem. É quase como se comunicar com as mentes de todo o mundo, compartilhando de suas alegrias e tristezas, de seus desejos e arrependimentos. Como explicar a um ser humano a grandiosidade e a complexidade disso, se os poucos que chegaram próximo de um entendimento foram ditos loucos e condenados... bem, condenados nem sempre apenas à censura das palavras.
            - Deixe estar, deixem pensar – pensou uma vez mais. Afinal, que podem eles fazer? Minha determinação, minha vontade de potência, como bem expressou aquele alemão (como era mesmo que se chamava?) permanecerá, ainda que a desconheçam. Não é à toa que usam o termo determinação pétrea.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Amor numérico


Resolvi, para desespero de vários de meus colegas historiadores, brincar um pouco com a questão do amor e dos números. Não te preocupes, caro leitor, a intenção desse texto não é te causar indisposição, mas antes abrir teus olhos para um olhar mais amplo sobre as coisas. Na verdade, para aqueles que não se lembram do cursinho ou fugiram dessa aula, vai uma pequena dica: conjuntos de números.
Como se sabe, entre os inúmeros estudiosos do amor, os mais respeitados tendem a considerá-lo um sentimento pertencente ao conjunto dos positivos, embora haja aqueles que digam o oposto, enumerando evidências de sua essência negativa e ainda os que digam que não passa de mais um fantasioso membro do conjunto vazio.
Outra dúvida constante sobre a essência do amor tem sido a dificuldade de classificá-lo como racional ou irracional. De fato, sua natureza é tão obscura que os debates vão ainda mais longe. Será que se pode incluí-lo entre os reais, ou será mais um imaginário? É difícil responder, pois nem sequer se chegou a um consenso quanto a ele ser complexo ou não.
Será uma grandeza escalar? Ou vetorial? Se for vetorial, qual o seu sentido? Qual o seu oposto? Qual é, para todos os efeitos, o seu inverso?
Bom, pelo menos a essas últimas perguntas ouso dar um palpite. O amor não pode ser escalar, pois esse conceito o limita demais. Logo, deve ser vetorial: sua grandeza tende ao infinito (entenda isso como “suficientemente grande para que não consigamos medir”), sua direção é o eixo felicidade-tristeza e o sentido é definido, a cada momento, por ti. Seu oposto é o ódio – sempre com mesma grandeza e direção, mas com sentido oposto – e o seu inverso é a indiferença.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A (d)existência da fé


Suponho que todos que estão lendo esse texto já se fizeram pensar, ao menos uma vez na vida, a respeito da existência de Deus. Como vocês sabem, é uma experiência bastante particular e peculiar, qualquer que tenha sido o resultado dessa reflexão.
Em meu caso, as primeiras reflexões foram as mais traumáticas, simplesmente por que eu não conseguia lidar com o “benefício da dúvida”. Curiosamente, no entanto, nunca me senti propenso a não acreditar que Deus (aqui pensado em um sentido mais amplo e vago) e, aos poucos, os resultados desses questionamentos foram se estabilizando em torno de uma ideia mais... líquida, por assim dizer (gosto da analogia por que é difícil de bater de frente com a água, por exemplo).
Essa “resposta” que me satisfez é simples: meu código moral, bastante influenciado pelo pensador Immanuel Kant, é satisfeito e, quiçá, complementado pela ideia de um Deus panteísta, isto é, uma entidade não apenas boa ou má, mas simplesmente tudo. Estou contente ao ser uma extensão mínima desse Deus e fico contente por esse Deus ser também uma extensão, uma extrapolação de minha mente. Não é a felicidade o objetivo de todos?
Gostaria finalizar com o vídeo de uma recitação de certo poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que de alguma maneira encontrou palavras para expressar o que sinto, embora eu duvide que o poema vá significar a mesma coisa para vocês.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Comunicado


Nosso cérebro é uma droga. Isso a gente já está cansado de saber. Na verdade, já que esse rugoso e seboso companheiro nosso de cada dia mereceria um epíteto mai carinhoso, se me permitem: um grande e convicto troll.
            Podemos ser elogiados por nossa capacidade sobre-humana de guardar informações e conectar teorias complexas, mas na hora de encontrar a droga do pendrive pra copiar uns arquivos demoramos quase uma hora para encontrá-lo (na máquina de lavar roupa, pois ele foi esquecido no bolso da calça). Ou podemos ter dezenas de ideias fantásticas durante um sonho e esquecer do sonho ao acordar (porém sabendo que o sonho foi foda). Ou ainda escrever um romance em um mês para depois ficar dois anos sem escrever uma anedota. Enfim, cada caso é um caso e meu cérebro acabou de me trollar me fazendo esquecer mais algum exemplo interessante.
            Enfim, voltando ao assunto. Os objetivos dessa publicação são três:

1.      Informar que, a partir de amanhã (15/12) até o dia 20/12 (sexta), inclusive, serão publicados posts diários, tendo em mente a compensação ao longo hiato em que o blog ficou jogado às traças;

2.      Se tudo der certo, o último post será um vídeo (o assunto é surpresa);

3.      Por favor, já que meu colega craniano acha a expressão hiato criativo bastante bonita e elegante, gostaria de lançar a saudável sugestão de que vocês me mandem ideias para os próximos posts (pode ser anônimo, não tem problema, é só postar nos comentários).

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Atão, queres ouvir algo?

                  Véi, na boa, eu prefiro usar textos de minha autoria neste blog, mas curti demais esta música do grupo português Anaquim (nesta música acompanhado pela cantora Ana Bacalhau). A letra, em particular, fez-me sorrir algumas vezes. Espero que gostem de igual maneira desta música.


O meu coração é um viajante
Que se entrega num instante
Por ai a onde for
Acha que sabe bem o que eu preciso
Prende-se a qualquer sorriso
Sem motivos de maior
O meu coração é inocente
Pensa que a vida é um mar de rosas
Mas eu que vi espinhos em toda a gente
Afasto essas certezas duvidosas
O meu coração é um bicho muito estranho
Que se esconde e não responde a quem chamar
Alérgico ao exterior vive na toca
Onde se esconde e sufoca por não ver entrar o ar
O meu coração vive trancado
Diz que atirou a chave ao mar
E eu que a procurei por todo o lado
Só me resta assim continuar
Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu vir que sim tu diz que não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e viver nesta prisão
Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti
Já encontraste?
Demoras muito ou quê?
O meu coração é uma criança
Ansiosa pela dança de quem lhe estender a mão
Mas este é caprichoso, inclusivo
Analista compulsivo que não chega à conclusão
O meu coração segue as novelas
Jubila com as falas das atrizes
O meu carrega histórias de mazelas
E afasta-se desses finais felizes
Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu vir que sim tu diz que não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e viver nesta prisão
Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti
Falei primeiro a bem por ser assunto de respeito
Mas não me deu ouvidos, prosseguiu naquele jeito
Mudei para as ameaças
Tentei que usasse a razão
Mas é palavra estranha pro meu pobre coração
Farta desses maus tratos fiz as malas e parti
E logo te encontrei com o mesmo modo que eu sofri
A mesma frustração
A mesma pose o mesmo olhar
E em teu toque senti no meu corpo outro pulsar
Juntos rimos de tudo
Só choramos nas novelas
Fingimos ser crianças e dançamos como elas
Perdemos noite e dia e entre histórias e canções
Juntamos nomes, gostos e moradas
E quase sem dar por nada
Encontramos corações
Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu vir que sim tu diz que não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e viver nesta prisão
Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

sábado, 17 de novembro de 2012

O amante é cego



            Novamente pressionado pelo nem tão querido companheiro que responde pelo nome de cérebro, decidi pensar um pouco mais sobre o famoso clichê “O amor é cego.”.
            De fato é uma frase que se verifica de tempos em tempos, pelo menos metaforicamente, mas podemos mudar nossa perspectiva para observar um caso bastante real de amor: o do cego.
Como será que um cego de nascença percebe o amor? Será que seu sentimento é ainda mais genuíno que o habitual, já que ele não pode ser “trapaceado” pela beleza do outro? Não faço a menor idéia, mas gosto de pensar que, de fato, há vezes em que a visão só nos limita, nos impede de perceber... outras coisas. A voz suave de uma pessoa querida, um cheiro familiar, o calor de um abraço e assim por diante.
               É nesse espírito que aqui deixo um poema que me agradou deveras, embora seja um pouco triste, de autoria de Paulo Felicíssimo Ferreira, poeta e pensador cego.
 
DESPEDIDA

 Foi bem assim a nossa despedida:
 Partimos, juntos, da singela rua,
 Que minha alma enlaçar-se viu na tua,
 Ambas, então, fundidas numa vida.

  Do tempo a veloz marcha era incontida;
 Qual barco errante, que no mar flutua,
 Minha existência, de esperanças nua,
 Ao sopro da ilusão foi sacudida!

 Entre o amor e o dever, eu, indeciso,
 Sentia que partir era preciso,
 Mas, querendo ficar, tornei-me mudo.

 Tomei da mão pequena que me deste
 E se, sorrindo, nada me disseste,
 Eu, nem chorando, te diria tudo!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Enquanto isso, em Cascavel



Tudo bem, eu sei que já fiz uma postagem criticando as generalizações e tudo o mais, mas sátiras e críticas se tornam, a meu ver, mais interessantes quando se consegue usar algumas ferramentas da língua portuguesa, seja a generalização, a hipérbole, ou o que convenha ao momento. É isso que tira um pouco a seriedade do texto e nos permite algumas abstrações interessantes.
Não sei quanto a vocês, mas para mim é deprimente passar por uma feira de livros e não encontrar UM sequer que me atraia e me incentive a comprá-lo. Pra ser franco, isso está acontecendo com uma frequência preocupante comigo ultimamente e me forço a perguntar qual o sentido dessa situação. Usando de um pouco de liberdade literária, resolvi elaborar uma hipótese simples e que, se correta, demonstra um contexto social repreensível.
Autores bons não são raros, mas editoras grandes o são. Logo, embora haja muitos livros bons, há poucos que podem ser publicados a bons preços. Feiras de livros oferecem livros baratos, mas livros baratos não são comuns. Logo, feiras de livros oferecem poucos livros. Livros baratos não são comuns e livros bons em geral não são baratos, logo livros bons baratos são raros. Conclusão: livros bons são raros em feiras. Faz sentido? Tirem suas próprias conclusões e, por favor, não levem tão a sério o que eu escrevi. Afinal de contas, a proposta deste espaço é justamente servir de exercício mental a quem quer que o leia (ou escreva, é evidente).

domingo, 28 de outubro de 2012

Cidadania

Cidadania, palavra de origem grega cuja etimologia denuncia um significado próximo a "condição relativa à cidade". Claro, como bem se sabe, palavras tem seu sentido alterado ao longo do tempo e seria equivocado usar a etimologia para expressar as emoções do cidadão contemporâneo. Além disso, não é mais um privilégio (ou seria um ônus?) do habitante das cidades vislumbrar os desdobramentos das relações de poder "democráticas".
Na verdade, desde que me entendo por gente, poucas foram as vezes em que me senti um cidadão, na concepção moderna do termo. De fato, na falta de um termo melhor, sinto-me um "bestializado", como diria José Murilo de Carvalho. Não sinto nem apatia nem tédio frente à situação de minha cidade, meu estado ou minha nação, mas, ainda assim, sinto-me impotente e velho. Como é duro ser brasileiro.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Apenas ao tocá-la

 Já não era possível conter aquele desejo ardente que o vinha assolando há tempos. Ultimamente viera arranjando desculpas para não se aproximar, afinal, havia coisas mais importantes que mereciam prioridade. Não mais - pensou. Não hoje.
Aproximou-se com certo receio, sem saber exatamente o que fazer, esperando como que um sinal para guiá-lo em suas ações. Ela, como de costume, silenciosa a um canto, olhando-o pelo canto do olho, ou pelo menos assim ele pensava. No final, planejar as ações não importava muito.
Os primeiros minutos passaram lentamente, em movimentos fluidos. Se antes havia algo que a envolvesse, agora seu corpo era plenamente visível; as curvas, antes insinuantes, agora delatoras de uma sintonia de que ele próprio mal conseguia se lembrar.
Aos poucos, o que era uma dança estudada e melódica se tornou um frenesi. Movimentos bruscos e cada vez mais velozes geravam gemidos agudos e profundos de sua companheira, cortando o ar da noite cálida. A harmonia já não importava, nada mais importava, até que... num movimento longo e cansado, tudo acabou.
Com um sorriso estampado no rosto, esperou até que seu coração parasse de palpitar tanto. Por fim, recomposto, cobriu-a novamente e a deixou descansando a um canto. Como era bom poder tocar sua rabeca novamente.

domingo, 30 de setembro de 2012

A paz interior



Vida, se és tão bela,
Por que usas maquiagem?
Não percebes? Ainda que a tua vela
Em mim se apague, como numa miragem
Em lance de discórdia e violência
De ti não guardarei rancor.
E nesse meu ser, na minha essência
nada mais que o próprio amor
Encontrarás, se meus ossos leres.
Não prometo o mesmo de outros seres,
Mas desde já eu te digo, seguro:
Por mais que eu me embrenhe no sofrimento

Criando um coração seco, duro
E dilacerado, em nenhum momento
Deixará de existir em meus lábios fechados
Um sorriso escondido, velado.
Com tua rudeza não me enganas,
Pois se usas a máscara da dor
Proteges o incólume frescor
Da sabedoria que emanas.




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Voto de silêncio



Tales voltava para casa vindo da escola, pronto para almoçar tranquilamente com sua família e, quem sabe, para um bom livro durante a tarde. Chegando em casa, notou que a televisão estava desligada (o que lhe trouxe certo alívio) e que sua mãe se preparava para alguma discussão com sua irmã mais velha.
As duas mulheres costumavam se dar bem, mas ultimamente suas conversas tinham tomado um viés mais religioso. Como bem se sabe, debates desse tipo só tem algum tipo de conclusão quando um dos lados cede, o que não parecia ser caso. Tales ficava meio constrangido com as conversas e se sentiu particularmente desconfortável quando lhe exigiram (“pedir” seria usar um eufemismo para a situação) sua opinião.
Sempre havia escutado que quem não possui opinião a respeito de um assunto ou é burro ou indeciso, ambas qualidades indesejáveis, entretanto, naquele momento, percebeu que mesmo que tivesse uma opinião, ela não valeria muita coisa. Portanto, deu às duas o parecer mais poderoso em que conseguiu pensar naquele momento: o silêncio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O juiz em cada um de nós


Esses dias me deu coragem de finalmente ler o tal do Discurso do Método, de René Descartes. Uma experiência deliciosa, de fato, já que há muitos meses eu não lia um livro tão inocente em alguns aspectos. De toda forma, desejo compartilhar uma reflexão simples do filósofo francês.
No início do Discurso, Descartes afirma que o bom senso é uma das coisas mais curiosas do ser humano, visto que, por mais que as pessoas se vejam enquanto imperfeitas e sempre busquem algum tipo de melhora em uma de suas características, o ser humano nunca olha para o seu bom senso enquanto algo a ser melhorado. Ele está satisfeito consigo mesmo nessa questão.
Parece-me que isto é simplista demais para descrever essa entidade abstrata dita Humanidade. Penso, portanto, em uma ligeira alteração deste pensamento, percebendo esse bom senso como um critério de classificação das pessoas no que se refere à sua maturidade. Embora uma firmeza de princípios seja evidentemente valorizada nos setores mais conservadores da sociedade, o auto reconhecimento da capacidade de julgamento é uma característica das pessoas de mente pequena, ao passo que as grandes pessoas percebem o quão frágil é a sua suposta sensatez frente ao contexto histórico em que vivem.
Mas claro que sempre vai vir um desgraçado e me chamar de relativista, não é mesmo? Pois é, foda-se.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O absolutismo da generalização


Já repararam como os tempos atuais tornaram fácil ouvir ou ler as palavras “tudo”, “nada”, “maioria”, “ninguém” e afins? Essa é uma situação, a meu ver, desconcertante (embora eu não vá usar termos de “baixo calão” nessa publicação, sinta-se livre para deixar sua mente buscar palavras mais adequadas, leitor(a)).
Deveria ser suspeito o fato de um candidato a historiador estar criticando a generalização de alguns fatos, visto que a História apresenta com regularidade religiosa esse tipo de recurso discursivo. Todavia, como poderiam confirmar alguns amigos, não sou lá um estudante muito ortodoxo nesse sentido.
Parece-me, pela minha parca experiência de vida, que falta às pessoas (pelo menos aquelas com quem eu convivo) um pouco de entendimento sobre análise do discurso. Será que esses indivíduos não escutam o que dizem, escrevem, compartilham? Ou será que eu estou sendo chato, pra variar?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ser ou sem você não ser


Quero paciência e a quero agora. Desejo esse sentimento pacato e acalentador, mesmo que nem sempre pacífico, por que também as guerras podem ser uma questão de paciência. Desejo essa companheira gentil, parceira dos bons ouvintes e dos bons amantes, por que sabe colher as informações necessárias para dar o tão desejado beijo no momento certo.
Quero a consciência plena, sempre e em todo lugar, a não ser no famigerado lar de Morfeu, que já nos fornece um preenchimento muito peculiar de vazios, ainda que existam seres que aos sonhos dediquem apenas um efêmero lugar no altar da patranha. Desejo a plenitude por que ela me faz feliz e a felicidade não se contenta apenas com um único receptáculo, buscando aqueles que estão à sua volta.
Quero que a razão concorde com meus sentimentos e também tente me convencer que amar-te é um ato justo, correto, para que assim eu não tenha argumentos para não estar contigo. Confesso-me, desejo-te, amemo-nos.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A moral quantificada


As evidências colhidas ao longo de minha breve e nem tão ilustre vida levam a crer que o exercício de tentar conhecer um pouco mais a si próprio é muito desgastante e, ainda que tentemos nos enganar, deveras frustrante.
Minha última tentativa, incentivada por certos acontecimentos terrenos que não merecem ser mencionados, só verificou essa teoria de uma maneira generosamente intensa. Usando uma frase muito (in)feliz de um certo hobbit a quem o senhor John Tolkien deu o sopro da vida, depois dessa viagem de reflexões e descobertas eu “[...] me sinto esticado como manteiga que foi espalhada num pedaço muito grande de pão.”. Em um português claro e conciso, sinto-me velho.
Não que isso não seja bom de vez em quando, mas a admiração pela velhice costuma vir nos momentos em que podemos observá-la à distância, curiosamente de maneira similar ao que ocorre com as guerras, por exemplo. De toda forma, deixando um pouco de lado as formas mais arrojadas da língua portuguesa (que há muito já deixou de ser lusa neste peculiar país), cheguei à definição dos limites de minha moral e, portanto, à definição de meu “preço”.
Não sei ao certo por que estou surpreso com isso. Já não diz um velho ditado que todo homem (preferiria o termo “humano”) tem o seu? As suspeitas recaem sobre um também velho conhecido da humanidade: o ego. Explico-me: é possível, simplesmente, que o orgulho me impedisse de ver minhas próprias limitações e, portanto, minha essência.
Aparentemente, ainda que não se tenha chegado a um consenso a respeito do que é o ser humano, supõe-se que uma parte do enunciado da definição seja “imperfeito”, um fato cuja inexorabilidade me deixa triste e, mais do que isso, cansado. De fato, tenho forças para apenas mais uma sentença. E tu, já te perguntaste qual o teu preço?




quarta-feira, 25 de julho de 2012

Plástico


-Imundo, sujo...
-Que se passa?
-Não sei, apenas fujo...
- Não há aqui pirraça.
-De fato, mas fujo é da fome...
-Não se resolve com comida?
-Não é bem isso que me consome.
É como uma ferida
Aberta em minha carne.
-Que pode ser esse alarme?
-Explicar não sei...
-Peço-lhe que tente...
-Pois bem, fá-lo-ei.
É como se minha mente
Fosse cortada pelo aço
E asfixiada pelo carvão
Não sei o que faço
Mal consigo ficar são
Com esse petróleo em meu sangue
Meu esterilizado coração
Eu quero ir ao mangue
Me enfiar no sertão
Para acabar com essa dor
Que não tem cheiro, nem face, nem cor
Que é como plástico
Que mata quieto, tácito.