sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cheiro de mudança

Há precisamente dois meses havia prometido a publicação desse texto caso a burocracia permitisse. Era um conto enviado ao 24º Concurso de Contos Paulo Leminski e, por isso, precisava esperar o resultado do concurso antes de publicá-lo, já que a Unioeste detém os direitos de publicação de um conto vencedor ou com menção honrosa. Bom, não foi dessa vez, mas valeu pela experiência. Desnecessário dizer (e mesmo assim digo) que hoje eu o escreveria de outra forma.


Certo dia, Povo levantou, vestiu-se, foi trabalhar. Levou bronca do patrão assim que chegou ao trabalho, Queremos alguém que tome iniciativa, alguém que tenha gana, que não abaixe a cabeça, Mas eu, Sem "mas", sem "porém", "contudo", todavia sinto dizer que, por ora, precisamos de você. Povo sentiu-se mal, deu um suspiro cansado e voltou ao serviço.
Sentia-se dividido por dentro, uma parte sua desejava avidamente entrar correndo na sala do chefe, mandar um sonoro vá se f**** e sair quebrando tudo, enquanto outra lhe dizia que um dia seu trabalho seria reconhecido, que um dia, quem sabe, ele poderia até vir a ser chefe e, imagine só, uma terceira, uma quarta, um enésima parte sua lhe falava, lhe sussurrava, lhe dava palpites.
Já em casa, observou cuidadosamente o lar, reparando nos requintes de crueldade presentes em sua multipolaridade: uma parede tosca de madeira decorada com um quadro barroco (não se sabe que parte deste mais luxuosa, a pintura ou a moldura) que ganhara em um sorteio qualquer. Às vezes, e apenas às vezes, aquela natureza morta contrastava com sua vida. Nada o incomodava mais do que sua cama: um lençol barato, que já fora branco, para acolhê-lo em raro momento de descanso, sempre tão caro. Não que o material não tivesse seu quê de conforto, seu dê o braço a torcer, diga olá ao sono, mas era difícil, sim, demasiado trabalhoso deixar de ser, afinal de contas, consciente. Interessante seria se não fosse necessário, mas suficiente cumprir o requisito do sono para conseguir um pouco de alento.

*

Povo levanta aos poucos, uma parte de cada vez, sacudindo a poeira, sacudindo as areias do tempo que vão assim, levianas, se prendendo nas juntas, de maneira inoportuna. Curioso que tanta areia não lhe tenha trazido um mar de sabedoria, mas antes um deserto de desespero. Desespero por que não havia lá muita esperança, muita expectativa em viver àquela altura da existência. Cansado, embora ainda não de todo resignado, vai à rua, tomar o caminho do trabalho.
Caminha distraído pela calçada, permitindo-se lançar olhares minimamente curiosos à sua volta, embora já soubesse mais ou menos o que veria: Célia, dona de uma quitanda e também (nega até a morte) de um ou outro sorriso indiscreto dos transeuntes, agitando as mãos enquanto discutia com um freguês; Agenor, já quase aposentado, contracenando com o café o tradicional ensaio de caretas antes de entrar em sala de aula; Reinaldo, desempregado, morador de rua, filósofo inveterado (naquele mesmo momento refletia profundamente sobre as implicações de abandonar seu posto e tentar a sorte na rua X); carros diversos passando na rua, unos em seu tossir, roncar, deixar escapar gases tóxicos de indiferença; um mundo de faces, cheiros, sabores.
Chegando ao trabalho, sente uma vontade estranha de ir à sala do chefe, a quem, por força do hábito, chama de “doutor”:
- Bom dia, doutor.
O chefe, estranhando aquela visita prematura, responde, cauteloso:
- Bom dia, Povo.
- Doutor, se alguma coisa de ruim me acontecer, quem se responsabiliza?
- Aconteceu alguma coisa?
- Apenas responda, por favor, chefe.
- Bom, eu me responsabilizo.
- E se algo de bom me acontecer?
- Imagino que também seja minha responsabilidade.
- Entendo... parece que vim em boa hora. Estou aqui para pedir um aumento.
- De quanto estamos falando?
- Depende do dia. Hoje quero um aumento de reconhecimento, amanhã de gentileza, depois quem sabe. Já passou da hora de tomarem decisões por mim, sejam elas certas ou erradas.

*

Povo acorda assustado, o despertador lembrando-o das possibilidades infinitas da tortura por negação do sono em mi menor. Permite-se um olhar cansado para o sol e também para si mesmo. É, parecia real o bastante. Levanta-se e começa a se preparar para o trabalho.
Em que trabalha, afinal? Para que, para quem trabalha? Já na rua (desta vez, aparentemente, de verdade), permitindo certa balbúrdia interior, não podia deixar de pensar, dolorosamente refletir sobre sua condição: condição de filósofo, que tudo vê, tudo sente, nada pode.

Parou por um instante, respirando fundo. Sentiu um cheiro curioso no ar... seria uma mudança? Não, só chuva mesmo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Premier coup

Breve discurso preparado para a formatura da turma de francês do Colégio Padre Carmello Perrone (acho que escrevi certo). Valeu pela experiência, eu penso. Não pensei que fosse sofrer tanto pra fazer o texto, mas o francês às vezes tem uma lógica de construção de frases com a qual não estou habituado, o que acabava quebrando minha linha de raciocínio. Para os que estão curiosos em saber como fica a pronúncia desse diabo, gravei um áudio tosco e deixei em anexo.

Bon soir,

         Comme a dit une fois Charles Baudelaire, "manier savamment une langue, c'est pratiquer une espèce de sorcellerie évocatoire.”. On pouvrait dire, sans peur d’être loin de la verité, qu’il est possible enchanter, hipnotizer, taire un écouteur à dominer bien la réthorique, l’art de bien parler et, cas possible, de bien conduire le raisonnement à la verité e la conduite à la beauté.
Mais bien sûr que les deux années ici investies n’étaient pas destinées exclusivement à l’étrange plaisir d’appeler l’attention d’autrui travers la parole ou l’écriture, mais aussi à le peut-être plus bizarre plaisir de se laisser emporter pour les mots de quelqu’un, soit en lire un livre, en train de regarder un film, en oüir une musique ou, enfin, en interagir, de les plus différentes façons, avec les infinies nuances de cette langue appelée français.
À chaque fois qu’ils venaient des pensées negatives face des difficultés, chaque fois que désister fût le mot d’ordre, nous nous disions: il n’a pas à se plaindre cette attend. Nous repétions notre conviction en aprendre quelque chose que pourrait faire non seulement notre vies, mais aussi las des autres, mieux.
            Comme a dit Maurice Maeterlinck, Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux. Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice.”.
Nous devons souhaiter, même de façon utopique, a tout le monde l’opportunité d’écouter, au moins une fois, dans sa propre langue, “je vous comprends”. C’est bon, c’est beau et c’est juste donner de la voix a toutes les personnes, n’est-ce pas?


Merci beaucoup.
Discours  <-------- aúdio :)

Seria crueldade de minha parte deixar vocês atolarem no Google Tradutor para tentar traduzir esse texto, mesmo por que o site costuma apanhar feio para o francês. Então deixo a tradução à disposição também.

  Boa noite,

Como disse certa vez Charles Baudelaire, “manusear habilmente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocativa”. Poderíamos dizer, sem medo de estarmos longe da verdade, que é possível encantar, hipnotizar, calar um ouvinte ao dominar bem a retórica, a arte de bem falar e, se possível, de bem conduzir o raciocínio à verdade e a conduta à bondade.
Mas é claro que os dois anos aqui investidos não se destinaram apenas ao estranho prazer de atrair a atenção de outrem através da fala ou da escrita, mas também do talvez mais bizarro prazer de se deixar levar pelas palavras de alguém, seja lendo um livro, assistindo a um filme, ouvindo uma música ou, enfim, interagindo, das mais diversas formas, com as infinitas nuances desse idioma dito francês.
A cada vez que à mente vinham pensamentos negativos frente às dificuldades, cada vez que desistir fosse a palavra de ordem, dizíamos a nós mesmos: não é para se lamentar essa espera. Repetíamos nossa convicção de aprender algo que poderia fazer não apenas nossas vidas, mas também as de outros, melhores.
Como disse uma vez Maurice Maeterlinck: “Não é para se lamentar essa espera, um sentimento mais ardente e mais generoso. Não é para se lamentar essa espera, o desejo de um pouco mais de felicidade, de um pouco mais de beleza, de um pouco mais de justiça.”.
Devemos desejar, ainda que de maneira utópica, a todo mundo a oportunidade de escutar, ao menos uma vez, em sua própria língua, “eu entendo você”. É bom, é bonito e é justo dar voz a todas as pessoas, não é?

Muito obrigado.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ossos do ofício

O despertador tocou, mais uma vez. Esther se levantou a contragosto, observando, ainda meio zonza, o horário e, mais importante, a data: 15 de outubro. Era um dia especial, aquele, ou pelo menos uma parte de seu cérebro teimava em dizer que era (a outra parte estava cagando pra isso).
Arrumou-se e dirigiu-se à escola, pasta na mão, convicção em mente. Era sempre curioso observar as expressões dos professores neste dia em particular. Um misto de alegria, constrangimento, sofrimento e indiferença. Não que isso fosse diferente de qualquer outro dia, mas a mudança de agente motivador trazia um je ne sais quoi à situação.
Neste dia, não acreditava em um elogio sequer dos alunos. Afinal, nada mais seria que um elogio da loucura. Loucura muito específica, por sinal: naquele teatro macabro chamado escola, mantinha a esperança romântica, o desejo quase libidinoso de entrar em sala e ver escrito no quadro, falha de roteiro: “ensina-me a viver”.
Entrando em sala, percebe que não foi desta vez. O amor por seus alunos continuava platônico, embora eles não tivessem ideia do que isso significasse.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Criação

A perspicácia, René Magritte

Tenho dentro de mim essa estranha vontade de escravizar. De onde será que isso vem? Algum instinto natural, uma necessidade antropologicamente justificável, moralmente profícua em tempos de pensamento mais raso? É possível. Mais possível do que relevante, eu diria, até por que o sentimento não passa, não cessa por conta do raciocínio (pelo menos não agora).
Agora o que importa é esse desejo de prender, comprimir, enfim, capturar o momento, usando de força bruta (por que não?) de expressão para dominar as sensações, guiar o esforço criativo, gerar trabalho através do outro.

Tenho, a um só tempo, pena e inveja de ti, ambiente. Toda vez que recebo elogios, não és tu quem os ouve, não sou quem os merece. Chamam-me artista, mas seria mais adequado rotularem-me diplomata: afinal de contas, consegui arrancar de ti um acordo, não? Minha fama pela sua imortalidade, ou ao menos de um momento seu.

domingo, 6 de outubro de 2013

Explicações e compromisso(s)

Olá. Já faz algum tempo, não? Suponho que eu deva alguma explicação, alguma desculpa esfarrapada para esse longo período (precisamente 66 dias) sem publicações de qualquer natureza. Creio que seja possível dar duas ou três respostas, de acordo com o rigor da investigação empreendida:
1. Durante esse tempo todo, a sensação de que eu simplesmente não tinha mais o que dizer me consumiu diariamente. Foi uma perspectiva a um tempo desanimadora e assustadora, pois negava muito aquele instinto de criatividade que meu ego insistia em portar como inabalável;
2. Justiça seja feita, escrevi um texto nesse período árido. Um filho único, maior do que meus textos de costume e, talvez por isso, mais traumático em seu parto. Um pequeno conto em que descarreguei toda a amargura que vim sentindo, todo o pessimismo que vez por outra me consome por dentro. Esse conto, por questões “burocráticas”, digamos, não pode ser publicado aqui (ainda). É possível que dentro de um mês eu possa mostrá-lo com detalhes sórdidos.
(3. Justiça novamente seja feita. Diversas foram as ocasiões em que, dividido entre o frescor de uma ideia e a carniça do ócio, decidi-me ser pálido urubu.)

Dito isso, creio ser sensato dar algum tipo de garantia ao público leitor. Na semana que vem espero conseguir elaborar algo novo (várias ideias em mente). Na melhor das hipóteses, 7 textos, na pior, bom, não pensemos no pior, por ora. Até lá.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Torpor

Há dias a serem lembrados, não por que o mereçam, devido talvez a uma característica intrínseca de sua natureza, natureza esta cruel, por vezes. Não, poder-se-ia dizer apenas que nossa mente, ou pelo menos a parte moralista dela (se já não morreu) possui um tato aguçado para o hábito da tortura.
Há dias em que não amanhece nem escurece em nossas vidas, em que água e bile tem o mesmo sabor insosso em nossas bocas desesperadamente áridas de culpa, de impotência. Momentos em que nos perguntamos o que aconteceu com nossa vontade de potência, com nossa arché.

Nesses dias me pergunto se a pílula vermelha que escolhi tomar não foi apenas mais uma pílula azul com uma propaganda bem bolada.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre o ódio

Não acredito que estou escrevendo sobre isso. Primeiro por que o tema já tem sido discutido à exaustão nos últimos dias. Segundo por que, justamente tendo em vista esse contexto, dar opinião traz a irritação de algumas pessoas e por vezes não sei lidar bem com isso.
Queria falar algumas coisas sobre São Paulo (suspiros). Fica tranquilo, o texto será breve.
Essa tem sido uma série de manifestações bastante significativa (se não nos números de participantes, na repercussão). Entretanto, todavia, contudo, curiosamente o que me chamou a atenção, desde o primeiro momento em que se falou em "confrontos" não foram os motivos da manifestação ou da repressão policial ou da destruição de patrimônio público ou sei lá o quê.
Nenhum desses fatores me interessou mais do que uma análise despretensiosa da carga histórica e antropológica desses eventos. Curiosamente, também, não foram as passeatas e os confrontos (por favor, não é relevante para esse post entrar em detalhes semânticos sobre a validade de termos como "vandalismo", "confrontos", "repressão", etc, descartem isso por ora), mas sim os comentários a respeito do tema.
Não digo que tenha sido uma surpresa essa constatação, mas é sempre impactante perceber quanto rancor o brasileiro guarda... do brasileiro. Esse rancor, materializado em uma espécie deturpada de consciência de classe, acaba se tornando, em algum momento, posicionamento político. Em um país que simplesmente ignora a divisão tradicional esquerda-direita, isso é um grande problema.
O movimento propriamente dito não tem sequer 1 mês de vida e já rolam as tradicionais fagulhas entre "reaças" e "comunas". Dá pena de ver, sério. Um fala que "tem que descer o cacete mesmo", o outro fala que "esses reaças de merda querem estragar o movimento", uma terceira fala desses "comunistas fdp que se aproveitam da situação", etc etc etc.
Isso já está dando nos nervos. Todo dia a mesma lenga-lenga, as mesmas discussões, o mesmo nada levando a lugar nenhum. Sabe, gente, um pouco de empatia não machuca. Os "reaças" não são alienados que babam pra "mídia golpista" (por incrível que pareça, boa parte deles realmente se importa com o bem das outras pessoas). Os "comunas" não são seres maquiavélicos que querem a destruição dos bons costumes e das liberdades individuais (por incrível que pareça, boa parte deles se importa também com você, colega "reaça"). Mas claro que sempre vai vir um e dizer que eu sou cínico, não é mesmo? Que não me posiciono (na esquerda ou na direita), blá blá blá.
Reflitam um pouco sobre isso. Menos ódio, mais caráter. Tenham um bom dia e me desculpem pelo excesso de aspas no texto. Julguei-as necessárias.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ne dis pas adieu

Depois de certo tempo em silêncio, despediram-se, como de praxe:
- Adeus.
- Adeus.
Algo parecia errado. Por que lhe dizia adeus? Não sabia sua boca que a pessoa ali em frente nada significava? Que lhe importava o afastamento de figura tão frágil, tão imperfeita, tão humana? Não era isso que lhe queria dizer.
De fato, o que realmente lhe era caro não se afastava dele. O dia inteiro aquela ideia de perfeição velada o perseguia. Nem por um momento se afastaria dela. Não, a cada passo rumo à distância não podia deixar de pensar que era mais próxima, mais nítida a imagem do conforto, do riso fácil, da incredulidade pela sorte.
- Não diga adeus.
- E que direi eu?
Dirá... o que dirá?
- Aproveite o dia.
- Mas já não é noite?
- E por isso é tarde para aproveitar o dia?

Sua ideia lhe acenou com um sorriso ainda em botão, a que se chama usualmente meio-sorriso. Não poderia haver um nome mais adequado, afinal de contas, a outra metade do sorriso pertencia senão a outra boca.


*Nota: o título foi um problema e tanto. Quase deixei sem título mesmo, mas acabei decidindo pela sugestão de um amigo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Silêncio morno

Certa convenção de sinais
Decerto existe, implícita
Que nos prende, reles mortais
E diz subversiva, quase ilícita
A menção de certo adjetivo
Ao silêncio, termo subjetivo.

Pode-se dizer, usualmente,
“Silêncio caloroso”,
Típico de quem sente
Afeto extremoso
E prefere as ranhuras de um lábio
Às palavras de um gentil sábio.

Entretanto, mais comum
É dizer “silêncio frio”
Desses que qualquer um
Tendo em mãos um fio
De lucidez, de serenidade mórbida,
Rebate uma acusação sórdida.

Descartada a possibilidade
De aderir a uma dessas falas,
O apelo da simplicidade
E da linguagem isenta de gala
Chama-nos a dizer, de modo trivial
Silêncio morno, expressão quase jovial.

Por que morno, dirão?
Por dentro não há fogo,
Sem vestígios de paixão
E por fora nenhum jogo
De intrigas a ser lido,
Nenhum lábio de gelo partido.

sábado, 11 de maio de 2013

Discriminação

Decidi, desta vez, substituir meus textos por um trecho de um determinado mangá chamado Vinland Saga. A cena se passa em Mércia, região da Inglaterra, no ano 1013 d.C., se não me falha a memória. A conversa se passa entre um padre (o barbudo) e o príncipe Canute (não se deixem enganar, não é uma mulher). Ragnar era seu antigo tutor. Leiam com atenção (lembrando que os quadrinhos e as falas seguem da direita para a esquerda e de cima para baixo).








sábado, 30 de março de 2013

Sombras da honra



A pradaria contemplava impassível a cena que se estendia a sudeste e a noroeste de seus limites. A um lado, um exército pálido e doentio, mal se sustentando sobre as próprias pernas (há de se levar em conta que as passagens sinuosas das Montanhas do Cadafalso, a norte dali, eram bastante desgastantes para o viajante desavisado). De outro lado, uma milícia quase uniformemente negra, coberta quase até o pescoço de uma substância tão repugnante que, a fins eufemísticos, devemos chamar piche (uma pequena lembrança dos Pântanos da Miséria).
            Um instante que pareceu durar horas se estendeu enquanto duas almas ferozes se encaravam, um momento digno de sua longevidade, visto que não é todo dia que dois reis se veem diante de tal panorama. Quisera a vida ser tão bela quanto os olhares desses dois homens eram determinados.
            Um aceno de mão foi o suficiente para dar início à tão esperada peleja, embora talvez seja necessário acrescentar certos requintes descritivos ao termo “esperada”. Se em algum momento a esperança surgiu na mente de um dos infelizes seres humanos ali presentes foi para encher seus corações de imagens de uma morte rápida ou de uma volta segura para casa.
            Embora seja difícil de crer, nenhum daqueles homens ali estava por instinto belicoso ou por ganância. Como marionetes, os soldados se moviam, sempre em frente, guiados por um sentido maior o qual, ironia (e quiçá cinismo) do destino, era o mesmo para ambos os lados: paz. Talvez esse fosse o fato mais cruel e doloroso a se presenciar naquela tarde de outono: o que se pode dizer quando o ideal mais puro se torna o meio mais eficaz para a existência de um banho de sangue?
            É de se pensar que algumas mentes torturadas por esse pensamento ali presentes estivessem ali de bom grado. Melhor ter uma lança cravada em seu pescoço e enfim poder ter um motivo real para não conseguir engolir sua saliva.
            A batalha lentamente começou a se desenvolver. O desgaste trouxe consigo a cautela e esta, consigo, a estratégia. Nada que pudesse evitar de todo o que estava por vir. A cada vida retirada, lágrimas de sangue manchavam a relva, lágrimas estranhas a verter não dos olhos, mas de perfurações e cortes hediondos.
            Pouco mais de uma hora foi necessária para que, depois de tantas mortes, o ferro do sangue fosse mais abundante que o das armas. Pouco mais de uma hora para que a sensatez fosse maior que o pudor, a resignação maior que o orgulho. O rei branco entrega seu cetro. Está encerrada mais uma partida de xadrez.

terça-feira, 19 de março de 2013

Sobre investigações


            
           Resolvi fazer um texto de pira filosófica, só pra descontrair um pouco. Por onde seria mais seguro começar?
            Em certo grau, concordo com um certo amigo meu que no campo das teorias da História chegou-se a um ponto de produção literária saturada, o famoso mais do mesmo em cada livro a ser lido. Gostaria, dito isso, de apresentar algumas considerações as quais, embora não originais ou revolucionárias, são, no mínimo, raras.
            Estamos bastante acostumados com o termo “crono” em nosso cotidiano. Cronologia, cronômetro, crônico, etc. Isso por que o termo grego “khronos” simboliza a passagem quantificada e exata do tempo, um sentido bastante palpável e fácil de apreender. Entretanto, poucas pessoas sabem que há duas palavras para tempo em grego. O outro termo é “kairos”, isto é, o tempo impossível de ser contado, o instante de perfeição, o momento decisivo, o instante eterno.
            Como podemos ver, um termo bastante abstrato e, ainda assim, aparentemente bastante apropriado para determinadas áreas do conhecimento. Tomando nota desse termo, podemos dizer de forma acurada que o termo “cronologia” é apropriado à história, nos moldes a que esta se propõe?
            Mesmo o mais ortodoxo positivista, em seu zelo pelo rigor de datas e fatos, assim como pela determinação exata de fenômenos de estática e dinâmica social, precisaria admitir que o que a História sempre buscou foi uma “cairologia”, com o perdão do neologismo. Os fatos são importantes, mas quais fatos? O dia-a-dia cíclico, preciso, quase planejado? Ou os momentos de tensão em que algo especial acontece?
            Deixo a analogia da aceitação do “kairos” em outras teorias para sua imaginação. Finalizo apenas com uma pergunta: se a História é uma ciência dos homens no tempo, de qual tempo estamos falando?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ao progenitor


Olá, senhor meu pai,
Deve com certeza se lembrar
Que eu nunca disse um “ai”
Quando, a crescer e desabrochar
Descobri-me, antes de tudo, gente
De condição difícil, deprimente.

Como muitas crianças
Era um sonhador nato
Mas minhas esperanças
De fazer do sonho, fato,
Pareciam ser tão distantes
Como São Paulo, dos retirantes.

Ah! Quase doces tempos de infância,
Época de muitos amigos,
Lar de processo que, em última instância,
É dito, desde tempos antigos,
Como o emocionante prólogo da vida
Pelo destino e pelo Estado carcomida.

Sem dúvida digno de nota
Foi determinado evento
Em que tu, à beira da bancarrota
E eu, cheio de alento
Conversamos a respeito de uma bola
Depois de chegado eu da escola.

De experiência eu carecia
Mais do que de dinheiro
O senhor tristemente padecia
E por isso, sorrateiro
Depois de uma lição de vida
Desisti de minha bola querida.

De chorar nunca tive muita vontade
Mas percebi que pior que apanhar
Era ver nos olhos de alguém a verdade
E ao mesmo tempo a vontade de calar.
Naquele dia a lágrima que derramei
Saiu dos olhos do pai que tanto amei.

Não pudeste me encarar
Ao me pedir que trabalhasse.
Não pude senão aceitar
Tarefa que te ajudasse.
E ao fim de um ano, mais uma lágrima
Mas desta vez não por uma lástima.

Um momento de glória
Ao comprar um pedaço de couro
O qual minha curta memória
Teima em ver em tons de ouro.
E no dia seguinte, como noutro qualquer
Levantei cedo para exercer o mister.

Desde então, sem nunca me saciar
Novas conquistas venho buscando:
Estudar, amar, muitas vidas salvar.
Será que seria justo, delirando,
Almejar algo ainda mais grandioso?
Dar voz a um último desejo fogoso?

Nesse momento, preciso acreditar que sim.
Por que eu tenho um sonho
Guardado em segredo dentro de mim.
E desde já me proponho
A fazer de você, pai, uma pessoa feliz
Dando a você o filho que sempre quis.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O poder de ser bom (só que não)


Estes dias me peguei a pensar sobre algumas possíveis metáforas para tornar meu pensamento mais facilmente compreensível em futuras conversas. É conveniente, a princípio, ter um mote para a exposição de meu pensamento e para isso usarei um tema relativamente recorrente em discussões informais.
            Provavelmente já devem ter ouvido alguma afirmação do tipo “Bando de políticos safados. Se eu estivesse no poder faria alguma coisa decente.”. Será mesmo? Seria possível fazer um teste para verificar a existência dessa vontade de fazer o bem (segundo a concepção utilitarista)? Acredito que sim. De fato, existe um cenário ideal para isso.
            Coloque uma pessoa em um recinto fechado (representando um escritório em potencial), com a possibilidade de tomar muitas decisões de risco que afetarão a todos dentro de uma determinada esfera de influência (representando uma condição de poder). Dê a essa pessoa a capacidade de escolher entre o benefício individual e o benefício geral (chamaremos isso de base moral). Submeta essa pessoa à pressão e eventualmente ao ódio de outras pessoas (os ossos do ofício) e, finalmente, dê a esse lugar o nome de trânsito. Veja o que acontece.
            Você está apto a ser um político? Pense a respeito.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Veritas




Lá estava ela novamente. Quantas vezes havia acontecido? Já tinha perdido a conta várias vezes. Era necessário se apegar a algo novamente, criar raízes, criar um senso de fé, no sentido latino da palavra*, mais profundo do que aquele que se cria habitualmente entre as pessoas. Ou talvez a confiança nas pessoas fosse a grande chave para lanças as bases de uma moralidade adequada.
Decidiu caminhar, de maneira despretensiosa e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fria e calculista. Sabia, ou preferira acreditar, que atividades rotineiras eram capazes de despertar sentimentos inesperados nas pessoas, ativando áreas inusitadas do cérebro.
Passeando, enfim, no limite entre a consciência e o andar dos segredos da mente, percebeu um padrão estranho em uma árvore à distância. Estranho por ser familiar e ao mesmo tempo quase inacreditável. Por um instante, pensara ter visto a si mesma nas ranhuras da casca da inocente pereira.
Seu ceticismo, muito aguçado nos últimos dias, lembrou-lhe de um velho termo que aprendera na faculdade: pareidolia. Olhou mais uma vez: a imagem já parecia um pouco difusa, embora suficientemente clara para seu humano, demasiadamente humano cérebro. Ele teimava em lhe dizer que havia um sentido oculto naquela situação.
Decidiu voltar para casa e refletir pausadamente sobre o assunto. O resto do dia, entretanto, não trouxe resultados muito alentadores. Não, nenhuma outra pareidolia, ou epifania ou glossolalia. O universo, aparentemente, decidira por bem permanecer em silêncio perante os sofrimentos de mais uma minúscula jovem.
Não conseguira dormir. Ao menos uma prova de que sua humanidade não lhe abandonara o corpo juntamente a suas certezas. Tentou comer e seu estômago se revirou. Tentou beber e sua garganta se fechou. Tentou ler e sua visão, já turva, a abandonou.
Como era possível que as pessoas pudessem viver assim? Observava os rostos aleatórios da rua movimentada e não compreendia aquela miscelânea de faces, umas sorridentes, outras impassíveis e outras abatidas, mas de algum modo todas determinadas. Bando de tolos, nem sequer conhecem o sabor da angústia.
Foi à farmácia e comprou “certo” medicamento. Sim, certo por que indefinido em sua frieza e certeiro em seus efeitos. Dose suficiente para fazer o serviço várias vezes. Olhou mais uma vez para a rua, perplexa. Será que era essa a verdade que tanto procurara? Que a vida simplesmente não faz sentido? Aparentemente sim, embora o sentimento de achar uma nova verdade não tivesse sido tão agradável como se lembrava. Bom, isso não dependia dela.
Duas horas se passaram. Ouviram-se batidas na porta. Provavelmente seu avô, que costumava visitá-la ocasionalmente. Ele tinha a chave (era uma das poucas pessoas em quem ela confiava) e entrou despreocupadamente. Percebeu-a já sem pulso, sem vida.
Mais uma verdade havia se suicidado. Curiosamente, no entanto, a moça sabia que mais uma apareceria em seu lugar. Lembrou-se do que seu avô lhe dissera uma vez: “acho que a verdade é meio espírita: quando você acha que ela morreu ela volta mais nova e com outra cara”.

* fides: termo jurídico romano que indica situação de pacto e confiança mútua.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Hunger


William woke up, somewhat slumberous, and began the day. Nothing so special as noticing the keen coolness of the water coming down from the shower until, during one of those epiphanic moments of life, decided to break routine. No, he didn’t go to work on pajamas or anything like that. I’ll let you decide what to call this “test” of sorts. Take my words lightly, will ya?
Well, how can we put it? He simply gave up nourishing himself that morning, hoping to find out how long would he stand up to the challenge and getting curious about how could it affect his way of being during the rest of the day.
At first, there were no symptoms at all. However, just in case, William wrote some notes on a paper:
“07:30 – I feel normal, almost too normal, in fact. Suppose I am not so dependant after all.
08:30 – Beginning to feel awkward. Still manage to concentrate on most affairs.
09:30 – That awful sensation is growing larger. Managing to focus on simple affairs… yet.
10:30 – Don’t know if I’ll make it ‘till noon. I’ve begun to feel cold sweat some time ago. Don’t know how long this has been happening.
11:47 – Sorry ‘bout the waiting. Gave up an hour ago: had to read the book.”
            What about you? How long can you keep your hunger for knowledge at stake?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A desconfiança da linguagem


            Aqueles que estudam o chamado pós-modernismo talvez estejam familiarizados com o título desse texto, visto que diversos autores da área já tocaram nesse assunto. Entretanto, para aqueles que ainda se perguntam o que significa essa expressão peculiar, peço-lhes que ainda não abandonem o texto. Ainda não.
            Por força de uma votação, fui escolhido orador da minha turma de faculdade para o dia da colação de grau. A princípio, pensei na tarefa como algo banal, fácil de ser efetivada. Aos poucos, todavia, fui percebendo minha incapacidade de trazer à tona um texto que satisfizesse meu desejo de ser capaz de representar todos os matizes de cores do espectro emocional humano, de tal forma a ser fiel à complexidade de fatos a qual se desenrolou nos 4 anos em que realizei o curso.
            Essa incapacidade de achar as palavras corretas, quando aflorada em uma pessoa que se julga boa conhecedora do léxico, é denunciante em certos aspectos e, em outros, indescritível. Aliás, essa palavra é talvez a mais reveladora da desconfiança da linguagem. Se existe uma coisa digna de ser chamada “indescritível”, existe também a sensação de que é injusto ser incapaz de representar, apenas em letras, algo inodoro, incolor, insosso, invisível e inaudível como um sentimento.
            A Palavra não é mais divina e o ser humano passa a olhar desconfiado para aquilo que por tanto tempo venerou como o advento da civilização. É particularmente duro chegar a esse raciocínio de maneira espontânea, sem precisar lê-lo em algum lugar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Lacônico


Tenho aguda ciência de que passei a extrapolar meu autoimposto limite temporal de 15 dias para cada publicação. De fato, penso que doravante se faz necessário explicitar que esse limite não mais existirá. Embora ele tenha me servido bem nalguns casos, me pressiona de maneira tal que é quase sufocante.
Dito isto, comecemos. Estive pensando na maneira como escrevo e percebi que tenho o desagradável vício da prolixidade (para ti, bom leitor, essa deve ser uma verdade evidente já há algum tempo, mas deves também ter absorvido a verdade de que as pessoas demoram mais a se conhecer do que a outrem). Por isso, senti-me tentado a escrever algo mais lacônico e, por extensão, mais próximo da maneira como me comporto em público. Não sei como me saí, mas cá está:

“Se muitas são as palavras que escrevo, é por que poucas o coveiro do esquecimento deixou enterradas no âmago do meu ser.”