Há precisamente dois meses havia prometido a publicação desse texto caso a burocracia permitisse. Era um conto enviado ao 24º Concurso de Contos Paulo Leminski e, por isso, precisava esperar o resultado do concurso antes de publicá-lo, já que a Unioeste detém os direitos de publicação de um conto vencedor ou com menção honrosa. Bom, não foi dessa vez, mas valeu pela experiência. Desnecessário dizer (e mesmo assim digo) que hoje eu o escreveria de outra forma.
Certo dia, Povo levantou,
vestiu-se, foi trabalhar. Levou bronca do patrão assim que chegou ao trabalho,
Queremos alguém que tome iniciativa, alguém que tenha gana, que não abaixe a
cabeça, Mas eu, Sem "mas", sem "porém", "contudo",
todavia sinto dizer que, por ora, precisamos de você. Povo sentiu-se mal, deu
um suspiro cansado e voltou ao serviço.
Sentia-se dividido por dentro, uma
parte sua desejava avidamente entrar correndo na sala do chefe, mandar um
sonoro vá se f**** e sair quebrando tudo, enquanto outra lhe dizia que um dia
seu trabalho seria reconhecido, que um dia, quem sabe, ele poderia até vir a
ser chefe e, imagine só, uma terceira, uma quarta, um enésima parte sua lhe
falava, lhe sussurrava, lhe dava palpites.
Já em casa, observou cuidadosamente
o lar, reparando nos requintes de crueldade presentes em sua multipolaridade:
uma parede tosca de madeira decorada com um quadro barroco (não se sabe que
parte deste mais luxuosa, a pintura ou a moldura) que ganhara em um sorteio
qualquer. Às vezes, e apenas às vezes, aquela natureza morta contrastava com
sua vida. Nada o incomodava mais do que sua cama: um lençol barato, que já fora
branco, para acolhê-lo em raro momento de descanso, sempre tão caro. Não que o
material não tivesse seu quê de conforto, seu dê o braço a torcer, diga olá ao
sono, mas era difícil, sim, demasiado trabalhoso deixar de ser, afinal de
contas, consciente. Interessante seria se não fosse necessário, mas suficiente
cumprir o requisito do sono para conseguir um pouco de alento.
*
Povo levanta aos poucos, uma parte
de cada vez, sacudindo a poeira, sacudindo as areias do tempo que vão assim,
levianas, se prendendo nas juntas, de maneira inoportuna. Curioso que tanta
areia não lhe tenha trazido um mar de sabedoria, mas antes um deserto de
desespero. Desespero por que não havia lá muita esperança, muita expectativa em
viver àquela altura da existência. Cansado, embora ainda não de todo resignado,
vai à rua, tomar o caminho do trabalho.
Caminha distraído pela calçada,
permitindo-se lançar olhares minimamente curiosos à sua volta, embora já
soubesse mais ou menos o que veria: Célia, dona de uma quitanda e também (nega
até a morte) de um ou outro sorriso indiscreto dos transeuntes, agitando as
mãos enquanto discutia com um freguês; Agenor, já quase aposentado, contracenando
com o café o tradicional ensaio de caretas antes de entrar em sala de aula;
Reinaldo, desempregado, morador de rua, filósofo inveterado (naquele mesmo
momento refletia profundamente sobre as implicações de abandonar seu posto e
tentar a sorte na rua X); carros diversos passando na rua, unos em seu tossir,
roncar, deixar escapar gases tóxicos de indiferença; um mundo de faces,
cheiros, sabores.
Chegando ao trabalho, sente uma
vontade estranha de ir à sala do chefe, a quem, por força do hábito, chama de
“doutor”:
- Bom dia, doutor.
O chefe, estranhando aquela visita
prematura, responde, cauteloso:
- Bom dia, Povo.
- Doutor, se alguma coisa de ruim
me acontecer, quem se responsabiliza?
- Aconteceu alguma coisa?
- Apenas responda, por favor,
chefe.
- Bom, eu me responsabilizo.
- E se algo de bom me acontecer?
- Imagino que também seja minha
responsabilidade.
- Entendo... parece que vim em boa
hora. Estou aqui para pedir um aumento.
- De quanto estamos falando?
- Depende do dia. Hoje quero um
aumento de reconhecimento, amanhã de gentileza, depois quem sabe. Já passou da
hora de tomarem decisões por mim, sejam elas certas ou erradas.
*
Povo acorda assustado, o
despertador lembrando-o das possibilidades infinitas da tortura por negação do
sono em mi menor. Permite-se um olhar cansado para o sol e também para si
mesmo. É, parecia real o bastante. Levanta-se e começa a se preparar para o
trabalho.
Em que trabalha, afinal? Para que,
para quem trabalha? Já na rua (desta vez, aparentemente, de verdade),
permitindo certa balbúrdia interior, não podia deixar de pensar, dolorosamente
refletir sobre sua condição: condição de filósofo, que tudo vê, tudo sente,
nada pode.
Parou por um instante, respirando
fundo. Sentiu um cheiro curioso no ar... seria uma mudança? Não, só chuva
mesmo.
Érico,
ResponderExcluirAchei genial seu texto. Digo, conto... Digo, escrito... Digo, arte... Digo... É, ficou foda. Além de acurada crítica social, tem a carga da análise e, o que humaniza o negócio: a leveza do que não é "não-ficção", sem deixar de ser real, de alguma forma.
Leio muitos blogs, de tudo quanto é tipo, acompanho alguns religiosamente, mas é absolutamente raro encontrar material assim na Internet. Você precisa fazer mais coisas assim (ou tirá-las da gaveta) e compilá-las, cara! Bem... Talvez você nem precise mesmo, mas nós precisamos que você faça! Haha!
Abraço!
Oi, Roger. Obrigado pelo elogio. Ainda me sinto um pouco desconfortável ao escrever contos, talvez pela extensão ligeiramente maior que a de um texto "padrão" de blog, o que dá um certo ar de afobação que me lembra a sensação de estar em uma piscina muito funda (uma experiência de infância que talvez eu conte outro dia).
ExcluirMais dia menos dia deve sair uma compilação de alguns textos meus e de uns amigos. Se tudo der certo ainda em 2014. Na próxima vez que nos encontrarmos entro em maiores detalhes. Abraços.