A perspicácia, René Magritte
Tenho dentro de mim
essa estranha vontade de escravizar. De onde será que isso vem? Algum instinto
natural, uma necessidade antropologicamente justificável, moralmente profícua
em tempos de pensamento mais raso? É possível. Mais possível do que relevante,
eu diria, até por que o sentimento não passa, não cessa por conta do raciocínio
(pelo menos não agora).
Agora o que importa é
esse desejo de prender, comprimir, enfim, capturar o momento,
usando de força bruta (por que não?) de expressão para dominar as sensações,
guiar o esforço criativo, gerar trabalho através do outro.
Tenho, a um só tempo,
pena e inveja de ti, ambiente. Toda vez que recebo elogios, não és tu quem os
ouve, não sou quem os merece. Chamam-me artista, mas seria mais adequado rotularem-me
diplomata: afinal de contas, consegui arrancar de ti um acordo, não? Minha fama
pela sua imortalidade, ou ao menos de um momento seu.

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