terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ossos do ofício

O despertador tocou, mais uma vez. Esther se levantou a contragosto, observando, ainda meio zonza, o horário e, mais importante, a data: 15 de outubro. Era um dia especial, aquele, ou pelo menos uma parte de seu cérebro teimava em dizer que era (a outra parte estava cagando pra isso).
Arrumou-se e dirigiu-se à escola, pasta na mão, convicção em mente. Era sempre curioso observar as expressões dos professores neste dia em particular. Um misto de alegria, constrangimento, sofrimento e indiferença. Não que isso fosse diferente de qualquer outro dia, mas a mudança de agente motivador trazia um je ne sais quoi à situação.
Neste dia, não acreditava em um elogio sequer dos alunos. Afinal, nada mais seria que um elogio da loucura. Loucura muito específica, por sinal: naquele teatro macabro chamado escola, mantinha a esperança romântica, o desejo quase libidinoso de entrar em sala e ver escrito no quadro, falha de roteiro: “ensina-me a viver”.
Entrando em sala, percebe que não foi desta vez. O amor por seus alunos continuava platônico, embora eles não tivessem ideia do que isso significasse.

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