Não acredito que estou escrevendo
sobre isso. Primeiro por que o tema já tem sido discutido à exaustão nos
últimos dias. Segundo por que, justamente tendo em vista esse contexto, dar
opinião traz a irritação de algumas pessoas e por vezes não sei lidar bem com
isso.
Queria falar algumas coisas sobre
São Paulo (suspiros). Fica tranquilo, o texto será breve.
Essa tem sido uma série de
manifestações bastante significativa (se não nos números de participantes, na
repercussão). Entretanto, todavia, contudo, curiosamente o que me chamou a
atenção, desde o primeiro momento em que se falou em "confrontos" não
foram os motivos da manifestação ou da repressão policial ou da destruição de
patrimônio público ou sei lá o quê.
Nenhum desses fatores me interessou
mais do que uma análise despretensiosa da carga histórica e antropológica
desses eventos. Curiosamente, também, não foram as passeatas e os confrontos
(por favor, não é relevante para esse post entrar em detalhes semânticos sobre
a validade de termos como "vandalismo", "confrontos",
"repressão", etc, descartem isso por ora), mas sim os comentários a
respeito do tema.
Não digo que tenha sido uma
surpresa essa constatação, mas é sempre impactante perceber quanto rancor o
brasileiro guarda... do brasileiro. Esse rancor, materializado em uma espécie
deturpada de consciência de classe, acaba se tornando, em algum momento,
posicionamento político. Em um país que simplesmente ignora a divisão
tradicional esquerda-direita, isso é um grande problema.
O movimento propriamente dito não
tem sequer 1 mês de vida e já rolam as tradicionais fagulhas entre
"reaças" e "comunas". Dá pena de ver, sério. Um fala que
"tem que descer o cacete mesmo", o outro fala que "esses reaças
de merda querem estragar o movimento", uma terceira fala desses
"comunistas fdp que se aproveitam da situação", etc etc etc.
Isso já está dando nos nervos. Todo
dia a mesma lenga-lenga, as mesmas discussões, o mesmo nada levando a lugar
nenhum. Sabe, gente, um pouco de empatia não machuca. Os "reaças" não
são alienados que babam pra "mídia golpista" (por incrível que
pareça, boa parte deles realmente se importa com o bem das outras pessoas). Os
"comunas" não são seres maquiavélicos que querem a destruição dos
bons costumes e das liberdades individuais (por incrível que pareça, boa parte
deles se importa também com você, colega "reaça"). Mas claro que
sempre vai vir um e dizer que eu sou cínico, não é mesmo? Que não me posiciono
(na esquerda ou na direita), blá blá blá.
Reflitam um pouco sobre isso. Menos
ódio, mais caráter. Tenham um bom dia e me desculpem pelo excesso de aspas no texto.
Julguei-as necessárias.
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