quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ne dis pas adieu

Depois de certo tempo em silêncio, despediram-se, como de praxe:
- Adeus.
- Adeus.
Algo parecia errado. Por que lhe dizia adeus? Não sabia sua boca que a pessoa ali em frente nada significava? Que lhe importava o afastamento de figura tão frágil, tão imperfeita, tão humana? Não era isso que lhe queria dizer.
De fato, o que realmente lhe era caro não se afastava dele. O dia inteiro aquela ideia de perfeição velada o perseguia. Nem por um momento se afastaria dela. Não, a cada passo rumo à distância não podia deixar de pensar que era mais próxima, mais nítida a imagem do conforto, do riso fácil, da incredulidade pela sorte.
- Não diga adeus.
- E que direi eu?
Dirá... o que dirá?
- Aproveite o dia.
- Mas já não é noite?
- E por isso é tarde para aproveitar o dia?

Sua ideia lhe acenou com um sorriso ainda em botão, a que se chama usualmente meio-sorriso. Não poderia haver um nome mais adequado, afinal de contas, a outra metade do sorriso pertencia senão a outra boca.


*Nota: o título foi um problema e tanto. Quase deixei sem título mesmo, mas acabei decidindo pela sugestão de um amigo.

Um comentário:

  1. Muito bom, Erico! Essa última estrofe foi obra de mestre. Sempre bom ler teus textos!

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