Lá estava ela
novamente. Quantas vezes havia acontecido? Já tinha perdido a conta várias
vezes. Era necessário se apegar a algo novamente, criar raízes, criar um senso
de fé, no sentido latino da palavra*, mais profundo do que aquele que se cria
habitualmente entre as pessoas. Ou talvez a confiança nas pessoas fosse a
grande chave para lanças as bases de uma moralidade adequada.
Decidiu caminhar, de
maneira despretensiosa e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fria e calculista.
Sabia, ou preferira acreditar, que atividades rotineiras eram capazes de
despertar sentimentos inesperados nas pessoas, ativando áreas inusitadas do
cérebro.
Passeando, enfim, no
limite entre a consciência e o andar dos segredos da mente, percebeu um padrão
estranho em uma árvore à distância. Estranho por ser familiar e ao mesmo tempo
quase inacreditável. Por um instante, pensara ter visto a si mesma nas ranhuras
da casca da inocente pereira.
Seu ceticismo, muito aguçado
nos últimos dias, lembrou-lhe de um velho termo que aprendera na faculdade: pareidolia.
Olhou mais uma vez: a imagem já parecia um pouco difusa, embora suficientemente
clara para seu humano, demasiadamente humano cérebro. Ele teimava em lhe dizer
que havia um sentido oculto naquela situação.
Decidiu voltar para
casa e refletir pausadamente sobre o assunto. O resto do dia, entretanto, não
trouxe resultados muito alentadores. Não, nenhuma outra pareidolia, ou epifania
ou glossolalia. O universo, aparentemente, decidira por bem permanecer em
silêncio perante os sofrimentos de mais uma minúscula jovem.
Não conseguira dormir.
Ao menos uma prova de que sua humanidade não lhe abandonara o corpo juntamente
a suas certezas. Tentou comer e seu estômago se revirou. Tentou beber e sua
garganta se fechou. Tentou ler e sua visão, já turva, a abandonou.
Como era possível que
as pessoas pudessem viver assim? Observava os rostos aleatórios da rua
movimentada e não compreendia aquela miscelânea de faces, umas sorridentes,
outras impassíveis e outras abatidas, mas de algum modo todas determinadas.
Bando de tolos, nem sequer conhecem o sabor da angústia.
Foi à farmácia e
comprou “certo” medicamento. Sim, certo por que indefinido em sua frieza e
certeiro em seus efeitos. Dose suficiente para fazer o serviço várias vezes.
Olhou mais uma vez para a rua, perplexa. Será que era essa a verdade que tanto
procurara? Que a vida simplesmente não faz sentido? Aparentemente sim, embora o
sentimento de achar uma nova verdade não tivesse sido tão agradável como se
lembrava. Bom, isso não dependia dela.
Duas horas se passaram.
Ouviram-se batidas na porta. Provavelmente seu avô, que costumava visitá-la
ocasionalmente. Ele tinha a chave (era uma das poucas pessoas em quem ela
confiava) e entrou despreocupadamente. Percebeu-a já sem pulso, sem vida.
Mais uma verdade havia
se suicidado. Curiosamente, no entanto, a moça sabia que mais uma apareceria em
seu lugar. Lembrou-se do que seu avô lhe dissera uma vez: “acho que a verdade é
meio espírita: quando você acha que ela morreu ela volta mais nova e com outra
cara”.
* fides: termo jurídico romano que indica situação de pacto e confiança mútua.
É o que sempre digo: enquanto eu fico tentando fazer análise disso e daquilo, rebuscando a porra toda com pseudo citações e socando teoria no rabo do leitor sem nem uma introdução de leve, você, Murilo e Eduardo conseguem mandar ver assuntos interessantes, de um jeito explicativo, instigante e, o mais importante, literário. Conseguem escrever sem cagar nas palavras buscando a pseudo objetividade que a academia nos incutiu. Isso é (boa) literatura, que eu gostaria de ver mais longa e encorpada.
ResponderExcluirAcho que vosso circulo de escrevedores deveria tentar se encaixar nos gêneros que o público está acostumado e fazer algo mais extenso, porque a qualidade de certas postagens é realmente digna de elogios. Fico de cara até.
P.S.: Não incluo o Fábio na consideração pois, embora eu acompanhe sempre as postagens do Homem a Moda Antiga, não me considero um, acho que não me enquadro no perfil dos poemas e parágrafos, então não posso opinar.
Estou escrevendo uma história um pouco mais longa, só que em verso, então deve demorar um pouco, mas acho que o mais tardar no início de abril estará aqui publicada. Valeu pelos elogios, sempre é bom um pouco de endorfina.
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