domingo, 2 de fevereiro de 2014

O beijo é um grito


         É fato consumado: o beijo é um grito. Em alguns momentos, coisa desesperadora de se presenciar, evento escandaloso, terrível, inoportuno. Quebra a linha de raciocínio, se é que dantes havia algum. Em outros momentos, é uma cena linda de se presenciar. Promove o riso, pois é engraçado presenciar esforço tão sobre-humano para desafiar a monotonia, o cinza das relações cotidianas. Causa certo repúdio, no entanto, presenciar grito cinza, desses sem sabor, sem aroma de vida.
         É fato consumado: o beijo é também um sussurro ao pé do ouvido. É como contar um segredo, com a ressalva de que todos conhecem esse sigilo: como é difícil contar as ranhuras de um lábio. Requer inspeções inúmeras, sempre em silêncio, para não perder a conta.
         O beijo também é... com licença. Que foi, querida? Quer contar novo? Ok, ok... tô indo. Queiram desculpar, mas o dever chama.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O mito do antro comunista

Mais de uma vez ouvi (e tenho quase certeza de que vocês compartilharam de similares experiências) que os cursos de História, Ciências Sociais e Filosofia, dentre outros, são antros de comunistas e que reunião de centro acadêmico de Humanas é praticamente comício do PCB (aqui o partido varia segundo a vontade do crítico, de PT a PCO).
            Pois bem, vamos aos fatos e deixemos de lado a discussão sobre o uso do termo “antro” nessas circunstâncias. Cursei História durante precisos 4 anos e, durante minha estadia na universidade, encontrei aproximadamente – considerando todas as turmas com que tive contato – 10 marxistas (alguns desses eu considero como marxistas com muitas reservas). Se eu fosse mais rigoroso, entrariam talvez 5 ou 6 nessa lista, sendo apenas um deles professor. Aliás, eu só soube que esse professor era marxista depois de terminar o curso, o que mostra, inclusive, a competência do dito docente.
            Para esse cômputo, considerei alunos de 5 turmas. Considerando uma média razoavelmente fiel de 25 alunos por turma, temos 125 alunos, mais 7 professores de História ou Sociologia. Em outras palavras, de 4% a 8% dos colegas de curso e 14% dos professores que conheci eram marxistas.
            Acho fascinante como as pessoas ainda tem essa imagem dos cursos de Humanas. Na boa, de uma turma inicial de 40 alunos, provavelmente 10 vão desistir, 20 não estão nem aí pra coisa toda e só querem o diploma e os 10 restantes se dividem entre várias correntes teóricas. No caso específico da História, existem pelo menos 4 grandes correntes de pensamento, a saber: Positivismo (um tanto ultrapassado), Weberianismo, Marxismo e Annalismo (usa-se também o termo Nova História).
            Até existe uma certa predominância de marxistas em um ou outro curso, mas não chega nem perto da situação dos anos 70, por exemplo. Como Astor Antonio Diehl bem explicou, os anos 1990 e a crise do chamado socialismo real representaram uma forte crise paradigmática (isto é, de valores, padrões, modelos) para os historiadores e, de maneira mais geral, também para as demais ciências humanas.

            Eu realmente lamento se suas aulas de História no Ensino Básico foram marcadas exclusivamente por leituras do Manifesto Comunista, A Ideologia Alemã e afins, mas essa não é a pegada da universidade. Você ainda poderia dizer: ah, mas eu nunca vi um livro do Weber, do Durkheim, do Marc Bloch ou do Carlo Ginzburg na biblioteca da escola. Bom, se você se coçar um pouco, vai descobrir que tampouco será fácil encontrar O Capital nessa mesma biblioteca. Além disso, é de se perguntar: você leria A Ética Protestante, O Suicídio, Apologia da História ou Olhos de Madeira caso os encontrasse em uma estante? Dificilmente.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cheiro de mudança

Há precisamente dois meses havia prometido a publicação desse texto caso a burocracia permitisse. Era um conto enviado ao 24º Concurso de Contos Paulo Leminski e, por isso, precisava esperar o resultado do concurso antes de publicá-lo, já que a Unioeste detém os direitos de publicação de um conto vencedor ou com menção honrosa. Bom, não foi dessa vez, mas valeu pela experiência. Desnecessário dizer (e mesmo assim digo) que hoje eu o escreveria de outra forma.


Certo dia, Povo levantou, vestiu-se, foi trabalhar. Levou bronca do patrão assim que chegou ao trabalho, Queremos alguém que tome iniciativa, alguém que tenha gana, que não abaixe a cabeça, Mas eu, Sem "mas", sem "porém", "contudo", todavia sinto dizer que, por ora, precisamos de você. Povo sentiu-se mal, deu um suspiro cansado e voltou ao serviço.
Sentia-se dividido por dentro, uma parte sua desejava avidamente entrar correndo na sala do chefe, mandar um sonoro vá se f**** e sair quebrando tudo, enquanto outra lhe dizia que um dia seu trabalho seria reconhecido, que um dia, quem sabe, ele poderia até vir a ser chefe e, imagine só, uma terceira, uma quarta, um enésima parte sua lhe falava, lhe sussurrava, lhe dava palpites.
Já em casa, observou cuidadosamente o lar, reparando nos requintes de crueldade presentes em sua multipolaridade: uma parede tosca de madeira decorada com um quadro barroco (não se sabe que parte deste mais luxuosa, a pintura ou a moldura) que ganhara em um sorteio qualquer. Às vezes, e apenas às vezes, aquela natureza morta contrastava com sua vida. Nada o incomodava mais do que sua cama: um lençol barato, que já fora branco, para acolhê-lo em raro momento de descanso, sempre tão caro. Não que o material não tivesse seu quê de conforto, seu dê o braço a torcer, diga olá ao sono, mas era difícil, sim, demasiado trabalhoso deixar de ser, afinal de contas, consciente. Interessante seria se não fosse necessário, mas suficiente cumprir o requisito do sono para conseguir um pouco de alento.

*

Povo levanta aos poucos, uma parte de cada vez, sacudindo a poeira, sacudindo as areias do tempo que vão assim, levianas, se prendendo nas juntas, de maneira inoportuna. Curioso que tanta areia não lhe tenha trazido um mar de sabedoria, mas antes um deserto de desespero. Desespero por que não havia lá muita esperança, muita expectativa em viver àquela altura da existência. Cansado, embora ainda não de todo resignado, vai à rua, tomar o caminho do trabalho.
Caminha distraído pela calçada, permitindo-se lançar olhares minimamente curiosos à sua volta, embora já soubesse mais ou menos o que veria: Célia, dona de uma quitanda e também (nega até a morte) de um ou outro sorriso indiscreto dos transeuntes, agitando as mãos enquanto discutia com um freguês; Agenor, já quase aposentado, contracenando com o café o tradicional ensaio de caretas antes de entrar em sala de aula; Reinaldo, desempregado, morador de rua, filósofo inveterado (naquele mesmo momento refletia profundamente sobre as implicações de abandonar seu posto e tentar a sorte na rua X); carros diversos passando na rua, unos em seu tossir, roncar, deixar escapar gases tóxicos de indiferença; um mundo de faces, cheiros, sabores.
Chegando ao trabalho, sente uma vontade estranha de ir à sala do chefe, a quem, por força do hábito, chama de “doutor”:
- Bom dia, doutor.
O chefe, estranhando aquela visita prematura, responde, cauteloso:
- Bom dia, Povo.
- Doutor, se alguma coisa de ruim me acontecer, quem se responsabiliza?
- Aconteceu alguma coisa?
- Apenas responda, por favor, chefe.
- Bom, eu me responsabilizo.
- E se algo de bom me acontecer?
- Imagino que também seja minha responsabilidade.
- Entendo... parece que vim em boa hora. Estou aqui para pedir um aumento.
- De quanto estamos falando?
- Depende do dia. Hoje quero um aumento de reconhecimento, amanhã de gentileza, depois quem sabe. Já passou da hora de tomarem decisões por mim, sejam elas certas ou erradas.

*

Povo acorda assustado, o despertador lembrando-o das possibilidades infinitas da tortura por negação do sono em mi menor. Permite-se um olhar cansado para o sol e também para si mesmo. É, parecia real o bastante. Levanta-se e começa a se preparar para o trabalho.
Em que trabalha, afinal? Para que, para quem trabalha? Já na rua (desta vez, aparentemente, de verdade), permitindo certa balbúrdia interior, não podia deixar de pensar, dolorosamente refletir sobre sua condição: condição de filósofo, que tudo vê, tudo sente, nada pode.

Parou por um instante, respirando fundo. Sentiu um cheiro curioso no ar... seria uma mudança? Não, só chuva mesmo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Premier coup

Breve discurso preparado para a formatura da turma de francês do Colégio Padre Carmello Perrone (acho que escrevi certo). Valeu pela experiência, eu penso. Não pensei que fosse sofrer tanto pra fazer o texto, mas o francês às vezes tem uma lógica de construção de frases com a qual não estou habituado, o que acabava quebrando minha linha de raciocínio. Para os que estão curiosos em saber como fica a pronúncia desse diabo, gravei um áudio tosco e deixei em anexo.

Bon soir,

         Comme a dit une fois Charles Baudelaire, "manier savamment une langue, c'est pratiquer une espèce de sorcellerie évocatoire.”. On pouvrait dire, sans peur d’être loin de la verité, qu’il est possible enchanter, hipnotizer, taire un écouteur à dominer bien la réthorique, l’art de bien parler et, cas possible, de bien conduire le raisonnement à la verité e la conduite à la beauté.
Mais bien sûr que les deux années ici investies n’étaient pas destinées exclusivement à l’étrange plaisir d’appeler l’attention d’autrui travers la parole ou l’écriture, mais aussi à le peut-être plus bizarre plaisir de se laisser emporter pour les mots de quelqu’un, soit en lire un livre, en train de regarder un film, en oüir une musique ou, enfin, en interagir, de les plus différentes façons, avec les infinies nuances de cette langue appelée français.
À chaque fois qu’ils venaient des pensées negatives face des difficultés, chaque fois que désister fût le mot d’ordre, nous nous disions: il n’a pas à se plaindre cette attend. Nous repétions notre conviction en aprendre quelque chose que pourrait faire non seulement notre vies, mais aussi las des autres, mieux.
            Comme a dit Maurice Maeterlinck, Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux. Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice.”.
Nous devons souhaiter, même de façon utopique, a tout le monde l’opportunité d’écouter, au moins une fois, dans sa propre langue, “je vous comprends”. C’est bon, c’est beau et c’est juste donner de la voix a toutes les personnes, n’est-ce pas?


Merci beaucoup.
Discours  <-------- aúdio :)

Seria crueldade de minha parte deixar vocês atolarem no Google Tradutor para tentar traduzir esse texto, mesmo por que o site costuma apanhar feio para o francês. Então deixo a tradução à disposição também.

  Boa noite,

Como disse certa vez Charles Baudelaire, “manusear habilmente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocativa”. Poderíamos dizer, sem medo de estarmos longe da verdade, que é possível encantar, hipnotizar, calar um ouvinte ao dominar bem a retórica, a arte de bem falar e, se possível, de bem conduzir o raciocínio à verdade e a conduta à bondade.
Mas é claro que os dois anos aqui investidos não se destinaram apenas ao estranho prazer de atrair a atenção de outrem através da fala ou da escrita, mas também do talvez mais bizarro prazer de se deixar levar pelas palavras de alguém, seja lendo um livro, assistindo a um filme, ouvindo uma música ou, enfim, interagindo, das mais diversas formas, com as infinitas nuances desse idioma dito francês.
A cada vez que à mente vinham pensamentos negativos frente às dificuldades, cada vez que desistir fosse a palavra de ordem, dizíamos a nós mesmos: não é para se lamentar essa espera. Repetíamos nossa convicção de aprender algo que poderia fazer não apenas nossas vidas, mas também as de outros, melhores.
Como disse uma vez Maurice Maeterlinck: “Não é para se lamentar essa espera, um sentimento mais ardente e mais generoso. Não é para se lamentar essa espera, o desejo de um pouco mais de felicidade, de um pouco mais de beleza, de um pouco mais de justiça.”.
Devemos desejar, ainda que de maneira utópica, a todo mundo a oportunidade de escutar, ao menos uma vez, em sua própria língua, “eu entendo você”. É bom, é bonito e é justo dar voz a todas as pessoas, não é?

Muito obrigado.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ossos do ofício

O despertador tocou, mais uma vez. Esther se levantou a contragosto, observando, ainda meio zonza, o horário e, mais importante, a data: 15 de outubro. Era um dia especial, aquele, ou pelo menos uma parte de seu cérebro teimava em dizer que era (a outra parte estava cagando pra isso).
Arrumou-se e dirigiu-se à escola, pasta na mão, convicção em mente. Era sempre curioso observar as expressões dos professores neste dia em particular. Um misto de alegria, constrangimento, sofrimento e indiferença. Não que isso fosse diferente de qualquer outro dia, mas a mudança de agente motivador trazia um je ne sais quoi à situação.
Neste dia, não acreditava em um elogio sequer dos alunos. Afinal, nada mais seria que um elogio da loucura. Loucura muito específica, por sinal: naquele teatro macabro chamado escola, mantinha a esperança romântica, o desejo quase libidinoso de entrar em sala e ver escrito no quadro, falha de roteiro: “ensina-me a viver”.
Entrando em sala, percebe que não foi desta vez. O amor por seus alunos continuava platônico, embora eles não tivessem ideia do que isso significasse.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Criação

A perspicácia, René Magritte

Tenho dentro de mim essa estranha vontade de escravizar. De onde será que isso vem? Algum instinto natural, uma necessidade antropologicamente justificável, moralmente profícua em tempos de pensamento mais raso? É possível. Mais possível do que relevante, eu diria, até por que o sentimento não passa, não cessa por conta do raciocínio (pelo menos não agora).
Agora o que importa é esse desejo de prender, comprimir, enfim, capturar o momento, usando de força bruta (por que não?) de expressão para dominar as sensações, guiar o esforço criativo, gerar trabalho através do outro.

Tenho, a um só tempo, pena e inveja de ti, ambiente. Toda vez que recebo elogios, não és tu quem os ouve, não sou quem os merece. Chamam-me artista, mas seria mais adequado rotularem-me diplomata: afinal de contas, consegui arrancar de ti um acordo, não? Minha fama pela sua imortalidade, ou ao menos de um momento seu.