terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ossos do ofício

O despertador tocou, mais uma vez. Esther se levantou a contragosto, observando, ainda meio zonza, o horário e, mais importante, a data: 15 de outubro. Era um dia especial, aquele, ou pelo menos uma parte de seu cérebro teimava em dizer que era (a outra parte estava cagando pra isso).
Arrumou-se e dirigiu-se à escola, pasta na mão, convicção em mente. Era sempre curioso observar as expressões dos professores neste dia em particular. Um misto de alegria, constrangimento, sofrimento e indiferença. Não que isso fosse diferente de qualquer outro dia, mas a mudança de agente motivador trazia um je ne sais quoi à situação.
Neste dia, não acreditava em um elogio sequer dos alunos. Afinal, nada mais seria que um elogio da loucura. Loucura muito específica, por sinal: naquele teatro macabro chamado escola, mantinha a esperança romântica, o desejo quase libidinoso de entrar em sala e ver escrito no quadro, falha de roteiro: “ensina-me a viver”.
Entrando em sala, percebe que não foi desta vez. O amor por seus alunos continuava platônico, embora eles não tivessem ideia do que isso significasse.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Criação

A perspicácia, René Magritte

Tenho dentro de mim essa estranha vontade de escravizar. De onde será que isso vem? Algum instinto natural, uma necessidade antropologicamente justificável, moralmente profícua em tempos de pensamento mais raso? É possível. Mais possível do que relevante, eu diria, até por que o sentimento não passa, não cessa por conta do raciocínio (pelo menos não agora).
Agora o que importa é esse desejo de prender, comprimir, enfim, capturar o momento, usando de força bruta (por que não?) de expressão para dominar as sensações, guiar o esforço criativo, gerar trabalho através do outro.

Tenho, a um só tempo, pena e inveja de ti, ambiente. Toda vez que recebo elogios, não és tu quem os ouve, não sou quem os merece. Chamam-me artista, mas seria mais adequado rotularem-me diplomata: afinal de contas, consegui arrancar de ti um acordo, não? Minha fama pela sua imortalidade, ou ao menos de um momento seu.

domingo, 6 de outubro de 2013

Explicações e compromisso(s)

Olá. Já faz algum tempo, não? Suponho que eu deva alguma explicação, alguma desculpa esfarrapada para esse longo período (precisamente 66 dias) sem publicações de qualquer natureza. Creio que seja possível dar duas ou três respostas, de acordo com o rigor da investigação empreendida:
1. Durante esse tempo todo, a sensação de que eu simplesmente não tinha mais o que dizer me consumiu diariamente. Foi uma perspectiva a um tempo desanimadora e assustadora, pois negava muito aquele instinto de criatividade que meu ego insistia em portar como inabalável;
2. Justiça seja feita, escrevi um texto nesse período árido. Um filho único, maior do que meus textos de costume e, talvez por isso, mais traumático em seu parto. Um pequeno conto em que descarreguei toda a amargura que vim sentindo, todo o pessimismo que vez por outra me consome por dentro. Esse conto, por questões “burocráticas”, digamos, não pode ser publicado aqui (ainda). É possível que dentro de um mês eu possa mostrá-lo com detalhes sórdidos.
(3. Justiça novamente seja feita. Diversas foram as ocasiões em que, dividido entre o frescor de uma ideia e a carniça do ócio, decidi-me ser pálido urubu.)

Dito isso, creio ser sensato dar algum tipo de garantia ao público leitor. Na semana que vem espero conseguir elaborar algo novo (várias ideias em mente). Na melhor das hipóteses, 7 textos, na pior, bom, não pensemos no pior, por ora. Até lá.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Torpor

Há dias a serem lembrados, não por que o mereçam, devido talvez a uma característica intrínseca de sua natureza, natureza esta cruel, por vezes. Não, poder-se-ia dizer apenas que nossa mente, ou pelo menos a parte moralista dela (se já não morreu) possui um tato aguçado para o hábito da tortura.
Há dias em que não amanhece nem escurece em nossas vidas, em que água e bile tem o mesmo sabor insosso em nossas bocas desesperadamente áridas de culpa, de impotência. Momentos em que nos perguntamos o que aconteceu com nossa vontade de potência, com nossa arché.

Nesses dias me pergunto se a pílula vermelha que escolhi tomar não foi apenas mais uma pílula azul com uma propaganda bem bolada.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre o ódio

Não acredito que estou escrevendo sobre isso. Primeiro por que o tema já tem sido discutido à exaustão nos últimos dias. Segundo por que, justamente tendo em vista esse contexto, dar opinião traz a irritação de algumas pessoas e por vezes não sei lidar bem com isso.
Queria falar algumas coisas sobre São Paulo (suspiros). Fica tranquilo, o texto será breve.
Essa tem sido uma série de manifestações bastante significativa (se não nos números de participantes, na repercussão). Entretanto, todavia, contudo, curiosamente o que me chamou a atenção, desde o primeiro momento em que se falou em "confrontos" não foram os motivos da manifestação ou da repressão policial ou da destruição de patrimônio público ou sei lá o quê.
Nenhum desses fatores me interessou mais do que uma análise despretensiosa da carga histórica e antropológica desses eventos. Curiosamente, também, não foram as passeatas e os confrontos (por favor, não é relevante para esse post entrar em detalhes semânticos sobre a validade de termos como "vandalismo", "confrontos", "repressão", etc, descartem isso por ora), mas sim os comentários a respeito do tema.
Não digo que tenha sido uma surpresa essa constatação, mas é sempre impactante perceber quanto rancor o brasileiro guarda... do brasileiro. Esse rancor, materializado em uma espécie deturpada de consciência de classe, acaba se tornando, em algum momento, posicionamento político. Em um país que simplesmente ignora a divisão tradicional esquerda-direita, isso é um grande problema.
O movimento propriamente dito não tem sequer 1 mês de vida e já rolam as tradicionais fagulhas entre "reaças" e "comunas". Dá pena de ver, sério. Um fala que "tem que descer o cacete mesmo", o outro fala que "esses reaças de merda querem estragar o movimento", uma terceira fala desses "comunistas fdp que se aproveitam da situação", etc etc etc.
Isso já está dando nos nervos. Todo dia a mesma lenga-lenga, as mesmas discussões, o mesmo nada levando a lugar nenhum. Sabe, gente, um pouco de empatia não machuca. Os "reaças" não são alienados que babam pra "mídia golpista" (por incrível que pareça, boa parte deles realmente se importa com o bem das outras pessoas). Os "comunas" não são seres maquiavélicos que querem a destruição dos bons costumes e das liberdades individuais (por incrível que pareça, boa parte deles se importa também com você, colega "reaça"). Mas claro que sempre vai vir um e dizer que eu sou cínico, não é mesmo? Que não me posiciono (na esquerda ou na direita), blá blá blá.
Reflitam um pouco sobre isso. Menos ódio, mais caráter. Tenham um bom dia e me desculpem pelo excesso de aspas no texto. Julguei-as necessárias.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ne dis pas adieu

Depois de certo tempo em silêncio, despediram-se, como de praxe:
- Adeus.
- Adeus.
Algo parecia errado. Por que lhe dizia adeus? Não sabia sua boca que a pessoa ali em frente nada significava? Que lhe importava o afastamento de figura tão frágil, tão imperfeita, tão humana? Não era isso que lhe queria dizer.
De fato, o que realmente lhe era caro não se afastava dele. O dia inteiro aquela ideia de perfeição velada o perseguia. Nem por um momento se afastaria dela. Não, a cada passo rumo à distância não podia deixar de pensar que era mais próxima, mais nítida a imagem do conforto, do riso fácil, da incredulidade pela sorte.
- Não diga adeus.
- E que direi eu?
Dirá... o que dirá?
- Aproveite o dia.
- Mas já não é noite?
- E por isso é tarde para aproveitar o dia?

Sua ideia lhe acenou com um sorriso ainda em botão, a que se chama usualmente meio-sorriso. Não poderia haver um nome mais adequado, afinal de contas, a outra metade do sorriso pertencia senão a outra boca.


*Nota: o título foi um problema e tanto. Quase deixei sem título mesmo, mas acabei decidindo pela sugestão de um amigo.