domingo, 30 de setembro de 2012

A paz interior



Vida, se és tão bela,
Por que usas maquiagem?
Não percebes? Ainda que a tua vela
Em mim se apague, como numa miragem
Em lance de discórdia e violência
De ti não guardarei rancor.
E nesse meu ser, na minha essência
nada mais que o próprio amor
Encontrarás, se meus ossos leres.
Não prometo o mesmo de outros seres,
Mas desde já eu te digo, seguro:
Por mais que eu me embrenhe no sofrimento

Criando um coração seco, duro
E dilacerado, em nenhum momento
Deixará de existir em meus lábios fechados
Um sorriso escondido, velado.
Com tua rudeza não me enganas,
Pois se usas a máscara da dor
Proteges o incólume frescor
Da sabedoria que emanas.




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Voto de silêncio



Tales voltava para casa vindo da escola, pronto para almoçar tranquilamente com sua família e, quem sabe, para um bom livro durante a tarde. Chegando em casa, notou que a televisão estava desligada (o que lhe trouxe certo alívio) e que sua mãe se preparava para alguma discussão com sua irmã mais velha.
As duas mulheres costumavam se dar bem, mas ultimamente suas conversas tinham tomado um viés mais religioso. Como bem se sabe, debates desse tipo só tem algum tipo de conclusão quando um dos lados cede, o que não parecia ser caso. Tales ficava meio constrangido com as conversas e se sentiu particularmente desconfortável quando lhe exigiram (“pedir” seria usar um eufemismo para a situação) sua opinião.
Sempre havia escutado que quem não possui opinião a respeito de um assunto ou é burro ou indeciso, ambas qualidades indesejáveis, entretanto, naquele momento, percebeu que mesmo que tivesse uma opinião, ela não valeria muita coisa. Portanto, deu às duas o parecer mais poderoso em que conseguiu pensar naquele momento: o silêncio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O juiz em cada um de nós


Esses dias me deu coragem de finalmente ler o tal do Discurso do Método, de René Descartes. Uma experiência deliciosa, de fato, já que há muitos meses eu não lia um livro tão inocente em alguns aspectos. De toda forma, desejo compartilhar uma reflexão simples do filósofo francês.
No início do Discurso, Descartes afirma que o bom senso é uma das coisas mais curiosas do ser humano, visto que, por mais que as pessoas se vejam enquanto imperfeitas e sempre busquem algum tipo de melhora em uma de suas características, o ser humano nunca olha para o seu bom senso enquanto algo a ser melhorado. Ele está satisfeito consigo mesmo nessa questão.
Parece-me que isto é simplista demais para descrever essa entidade abstrata dita Humanidade. Penso, portanto, em uma ligeira alteração deste pensamento, percebendo esse bom senso como um critério de classificação das pessoas no que se refere à sua maturidade. Embora uma firmeza de princípios seja evidentemente valorizada nos setores mais conservadores da sociedade, o auto reconhecimento da capacidade de julgamento é uma característica das pessoas de mente pequena, ao passo que as grandes pessoas percebem o quão frágil é a sua suposta sensatez frente ao contexto histórico em que vivem.
Mas claro que sempre vai vir um desgraçado e me chamar de relativista, não é mesmo? Pois é, foda-se.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O absolutismo da generalização


Já repararam como os tempos atuais tornaram fácil ouvir ou ler as palavras “tudo”, “nada”, “maioria”, “ninguém” e afins? Essa é uma situação, a meu ver, desconcertante (embora eu não vá usar termos de “baixo calão” nessa publicação, sinta-se livre para deixar sua mente buscar palavras mais adequadas, leitor(a)).
Deveria ser suspeito o fato de um candidato a historiador estar criticando a generalização de alguns fatos, visto que a História apresenta com regularidade religiosa esse tipo de recurso discursivo. Todavia, como poderiam confirmar alguns amigos, não sou lá um estudante muito ortodoxo nesse sentido.
Parece-me, pela minha parca experiência de vida, que falta às pessoas (pelo menos aquelas com quem eu convivo) um pouco de entendimento sobre análise do discurso. Será que esses indivíduos não escutam o que dizem, escrevem, compartilham? Ou será que eu estou sendo chato, pra variar?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ser ou sem você não ser


Quero paciência e a quero agora. Desejo esse sentimento pacato e acalentador, mesmo que nem sempre pacífico, por que também as guerras podem ser uma questão de paciência. Desejo essa companheira gentil, parceira dos bons ouvintes e dos bons amantes, por que sabe colher as informações necessárias para dar o tão desejado beijo no momento certo.
Quero a consciência plena, sempre e em todo lugar, a não ser no famigerado lar de Morfeu, que já nos fornece um preenchimento muito peculiar de vazios, ainda que existam seres que aos sonhos dediquem apenas um efêmero lugar no altar da patranha. Desejo a plenitude por que ela me faz feliz e a felicidade não se contenta apenas com um único receptáculo, buscando aqueles que estão à sua volta.
Quero que a razão concorde com meus sentimentos e também tente me convencer que amar-te é um ato justo, correto, para que assim eu não tenha argumentos para não estar contigo. Confesso-me, desejo-te, amemo-nos.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A moral quantificada


As evidências colhidas ao longo de minha breve e nem tão ilustre vida levam a crer que o exercício de tentar conhecer um pouco mais a si próprio é muito desgastante e, ainda que tentemos nos enganar, deveras frustrante.
Minha última tentativa, incentivada por certos acontecimentos terrenos que não merecem ser mencionados, só verificou essa teoria de uma maneira generosamente intensa. Usando uma frase muito (in)feliz de um certo hobbit a quem o senhor John Tolkien deu o sopro da vida, depois dessa viagem de reflexões e descobertas eu “[...] me sinto esticado como manteiga que foi espalhada num pedaço muito grande de pão.”. Em um português claro e conciso, sinto-me velho.
Não que isso não seja bom de vez em quando, mas a admiração pela velhice costuma vir nos momentos em que podemos observá-la à distância, curiosamente de maneira similar ao que ocorre com as guerras, por exemplo. De toda forma, deixando um pouco de lado as formas mais arrojadas da língua portuguesa (que há muito já deixou de ser lusa neste peculiar país), cheguei à definição dos limites de minha moral e, portanto, à definição de meu “preço”.
Não sei ao certo por que estou surpreso com isso. Já não diz um velho ditado que todo homem (preferiria o termo “humano”) tem o seu? As suspeitas recaem sobre um também velho conhecido da humanidade: o ego. Explico-me: é possível, simplesmente, que o orgulho me impedisse de ver minhas próprias limitações e, portanto, minha essência.
Aparentemente, ainda que não se tenha chegado a um consenso a respeito do que é o ser humano, supõe-se que uma parte do enunciado da definição seja “imperfeito”, um fato cuja inexorabilidade me deixa triste e, mais do que isso, cansado. De fato, tenho forças para apenas mais uma sentença. E tu, já te perguntaste qual o teu preço?