terça-feira, 4 de setembro de 2012

O absolutismo da generalização


Já repararam como os tempos atuais tornaram fácil ouvir ou ler as palavras “tudo”, “nada”, “maioria”, “ninguém” e afins? Essa é uma situação, a meu ver, desconcertante (embora eu não vá usar termos de “baixo calão” nessa publicação, sinta-se livre para deixar sua mente buscar palavras mais adequadas, leitor(a)).
Deveria ser suspeito o fato de um candidato a historiador estar criticando a generalização de alguns fatos, visto que a História apresenta com regularidade religiosa esse tipo de recurso discursivo. Todavia, como poderiam confirmar alguns amigos, não sou lá um estudante muito ortodoxo nesse sentido.
Parece-me, pela minha parca experiência de vida, que falta às pessoas (pelo menos aquelas com quem eu convivo) um pouco de entendimento sobre análise do discurso. Será que esses indivíduos não escutam o que dizem, escrevem, compartilham? Ou será que eu estou sendo chato, pra variar?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ser ou sem você não ser


Quero paciência e a quero agora. Desejo esse sentimento pacato e acalentador, mesmo que nem sempre pacífico, por que também as guerras podem ser uma questão de paciência. Desejo essa companheira gentil, parceira dos bons ouvintes e dos bons amantes, por que sabe colher as informações necessárias para dar o tão desejado beijo no momento certo.
Quero a consciência plena, sempre e em todo lugar, a não ser no famigerado lar de Morfeu, que já nos fornece um preenchimento muito peculiar de vazios, ainda que existam seres que aos sonhos dediquem apenas um efêmero lugar no altar da patranha. Desejo a plenitude por que ela me faz feliz e a felicidade não se contenta apenas com um único receptáculo, buscando aqueles que estão à sua volta.
Quero que a razão concorde com meus sentimentos e também tente me convencer que amar-te é um ato justo, correto, para que assim eu não tenha argumentos para não estar contigo. Confesso-me, desejo-te, amemo-nos.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A moral quantificada


As evidências colhidas ao longo de minha breve e nem tão ilustre vida levam a crer que o exercício de tentar conhecer um pouco mais a si próprio é muito desgastante e, ainda que tentemos nos enganar, deveras frustrante.
Minha última tentativa, incentivada por certos acontecimentos terrenos que não merecem ser mencionados, só verificou essa teoria de uma maneira generosamente intensa. Usando uma frase muito (in)feliz de um certo hobbit a quem o senhor John Tolkien deu o sopro da vida, depois dessa viagem de reflexões e descobertas eu “[...] me sinto esticado como manteiga que foi espalhada num pedaço muito grande de pão.”. Em um português claro e conciso, sinto-me velho.
Não que isso não seja bom de vez em quando, mas a admiração pela velhice costuma vir nos momentos em que podemos observá-la à distância, curiosamente de maneira similar ao que ocorre com as guerras, por exemplo. De toda forma, deixando um pouco de lado as formas mais arrojadas da língua portuguesa (que há muito já deixou de ser lusa neste peculiar país), cheguei à definição dos limites de minha moral e, portanto, à definição de meu “preço”.
Não sei ao certo por que estou surpreso com isso. Já não diz um velho ditado que todo homem (preferiria o termo “humano”) tem o seu? As suspeitas recaem sobre um também velho conhecido da humanidade: o ego. Explico-me: é possível, simplesmente, que o orgulho me impedisse de ver minhas próprias limitações e, portanto, minha essência.
Aparentemente, ainda que não se tenha chegado a um consenso a respeito do que é o ser humano, supõe-se que uma parte do enunciado da definição seja “imperfeito”, um fato cuja inexorabilidade me deixa triste e, mais do que isso, cansado. De fato, tenho forças para apenas mais uma sentença. E tu, já te perguntaste qual o teu preço?




quarta-feira, 25 de julho de 2012

Plástico


-Imundo, sujo...
-Que se passa?
-Não sei, apenas fujo...
- Não há aqui pirraça.
-De fato, mas fujo é da fome...
-Não se resolve com comida?
-Não é bem isso que me consome.
É como uma ferida
Aberta em minha carne.
-Que pode ser esse alarme?
-Explicar não sei...
-Peço-lhe que tente...
-Pois bem, fá-lo-ei.
É como se minha mente
Fosse cortada pelo aço
E asfixiada pelo carvão
Não sei o que faço
Mal consigo ficar são
Com esse petróleo em meu sangue
Meu esterilizado coração
Eu quero ir ao mangue
Me enfiar no sertão
Para acabar com essa dor
Que não tem cheiro, nem face, nem cor
Que é como plástico
Que mata quieto, tácito.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Admitindo influências

          A necessidade de admitir para mim mesmo que não posso falar por todos os escritores se me apresenta de maneira mais evidente que a própria gravidade. Entretanto, arrisco dizer que esse ofício amador (por que mesmo quando profissional ama-se o que se está fazendo) implica na existência de um ego forte, o que, por vezes, incita a inveja em nossos corações ao vermos um texto de leitura fruitiva. Penso que vale a pena abdicar um pouco de meu orgulho e publicar para vossa apreciação um texto de autoria do escritor francês Martin Page, mais especificamente de sua obra "Como me tornei estúpido", cuja leitura, aliás, recomendo enfaticamente (algo em torno de 75 páginas, ou, como algumas pessoas gostam de medir, 3 ou 4 idas ao banheiro).

A cena se passa em uma reunião de suicidas fracassados e/ou em potencial.
"- Mas isso tudo são futilidades. Chega-se a essa conclusão, pensa-se nisso, a encontrar certa nobreza, uma sublimação, uma legitimação, uma transcendência, sei lá... a ilusão de um absoluto chamado morte ou liberdade que gostaríamos de fazer coincidir com uma igualdade perfeita. A verdade... a minha verdade - tenho de ser clara, falo de mim - é que estou doente. Um câncer achou que o meu corpo seria uma bela ilha paradisíaca e ali ele passa as suas férias, com os pés no oceano do meu sangue, bronzeando-se sob o sol do meu coração... Ele não tem necessidade de barraca, ele zomba dos raios do sol. As suas férias remuneradas consistem em me fazer morrer. Sofro atrozmente... Todos vocês sabem do que estou falando. Para não me contorcer de dor, sou obrigada a tomar injeções de morfina, a abarrotar-me de analgésicos... - do bolso interno do paletó, ela tira um pequeno vidro de medicamentos e o agita. - Isso tem um preço, o preço da minha consciência. Eu tenho controle sobre minha cabeça, mas isso corre o risco de não durar e por isso prefiro eliminar-me enquanto ainda sou "eu", antes de me deixar retalhar por um médico, estendida sem consciência numa mesa de cirurgia. É uma pequena liberdade, uma liberdade miserável. Se vocês estão aqui, é por que vocês também tem, sem dúvida, cânceres orgânicos ou cânceres da alma, tumores sentimentais, leucemias amorosas e metástases sociais que os corroem. E é isso o que determina nossa escolha, muito mais que qualquer grande ideia a respeito da nossa liberdade. Sejamos francos: se gozássemos de boa saúde, se fôssemos amados como merecemos, considerados, com um belo lugar na sociedade, estou certa de que esta sala estaria completamente vazia."

terça-feira, 10 de julho de 2012

Aos grandes poetas

Feliz por ouvir tão bela poesia
Triste por não poder, um dia
Chegar ao nível de quem
Compôs esse belo adágio
Sem vestígio de plágio
E que, nesse vai e vem
De estilos literários
Não se abala, não se cansa
E, ao invés disso, dança
Com palavras e dicionários.

Sua letra enfeitiça
Dá um golpe de espada
No coração da razão
Que como uma treliça
De pedra lapidada
Desmorona ao chão.

Grande poeta,
Já foste mero homem
Ou simplória mulher
Já foste jovem
Refém de seu mister
Ou de sua juventude
Vivendo ao máximo
A tolice e a virtude.