terça-feira, 17 de julho de 2012

Admitindo influências

          A necessidade de admitir para mim mesmo que não posso falar por todos os escritores se me apresenta de maneira mais evidente que a própria gravidade. Entretanto, arrisco dizer que esse ofício amador (por que mesmo quando profissional ama-se o que se está fazendo) implica na existência de um ego forte, o que, por vezes, incita a inveja em nossos corações ao vermos um texto de leitura fruitiva. Penso que vale a pena abdicar um pouco de meu orgulho e publicar para vossa apreciação um texto de autoria do escritor francês Martin Page, mais especificamente de sua obra "Como me tornei estúpido", cuja leitura, aliás, recomendo enfaticamente (algo em torno de 75 páginas, ou, como algumas pessoas gostam de medir, 3 ou 4 idas ao banheiro).

A cena se passa em uma reunião de suicidas fracassados e/ou em potencial.
"- Mas isso tudo são futilidades. Chega-se a essa conclusão, pensa-se nisso, a encontrar certa nobreza, uma sublimação, uma legitimação, uma transcendência, sei lá... a ilusão de um absoluto chamado morte ou liberdade que gostaríamos de fazer coincidir com uma igualdade perfeita. A verdade... a minha verdade - tenho de ser clara, falo de mim - é que estou doente. Um câncer achou que o meu corpo seria uma bela ilha paradisíaca e ali ele passa as suas férias, com os pés no oceano do meu sangue, bronzeando-se sob o sol do meu coração... Ele não tem necessidade de barraca, ele zomba dos raios do sol. As suas férias remuneradas consistem em me fazer morrer. Sofro atrozmente... Todos vocês sabem do que estou falando. Para não me contorcer de dor, sou obrigada a tomar injeções de morfina, a abarrotar-me de analgésicos... - do bolso interno do paletó, ela tira um pequeno vidro de medicamentos e o agita. - Isso tem um preço, o preço da minha consciência. Eu tenho controle sobre minha cabeça, mas isso corre o risco de não durar e por isso prefiro eliminar-me enquanto ainda sou "eu", antes de me deixar retalhar por um médico, estendida sem consciência numa mesa de cirurgia. É uma pequena liberdade, uma liberdade miserável. Se vocês estão aqui, é por que vocês também tem, sem dúvida, cânceres orgânicos ou cânceres da alma, tumores sentimentais, leucemias amorosas e metástases sociais que os corroem. E é isso o que determina nossa escolha, muito mais que qualquer grande ideia a respeito da nossa liberdade. Sejamos francos: se gozássemos de boa saúde, se fôssemos amados como merecemos, considerados, com um belo lugar na sociedade, estou certa de que esta sala estaria completamente vazia."

Nenhum comentário:

Postar um comentário