quarta-feira, 28 de maio de 2014

Solidão

Antes de mais nada, saudações. Já faz algum tempo, não? Há tempos desisti de tentar pedir desculpas por não escrever tanto como antigamente, até por que há tempos já desisti de fazer muitas coisas. A vida tem sido cansativa.
            Esses dias, lendo coisas aleatórias na internet, li uma frase que abriu uma ferida antiga em mim: “Se apaixone quando estiver pronto, não quando estiver solitário.”. Confesso que, na hora, aquilo me machucou bastante.
            Entendo o que a pessoa quis dizer. Não pode ser genuíno um amor surgido apenas de carência, apenas de uma necessidade de ter um ombro amigo em que se possa derramar algumas lágrimas mornas, feliz por poder preencher certo vazio interior. Esse sentimento é falso na medida em que é muito frágil: tão logo passe o vazio interior, passa a razão de ser do “amor”, salvo algumas felizes exceções.
Mas aí é que está a grande questão. É fácil falar uma coisa dessas, mas como fazemos para deixar de ser solitários? Como fazer para saciar adequadamente essa carência cotidiana que torna os dias tão longos, tão eternamente desprovidos de sentido? Eu não sei. Passei a minha vida inteira tentando responder essa pergunta, às vezes conseguindo até esquecê-la, mas, sinceramente, nunca a respondi satisfatoriamente.

Talvez por isso eu seja tão relutante e temeroso de entrar em novos relacionamentos. Como saber se o que sinto por alguém é real? Como saber se não é apenas um reflexo de minha carência? Ao solitário, até os sorrisos mornos e os apertos de mãos frouxos parecem apaixonados e sufocantes.

domingo, 23 de março de 2014

Confissão em três passos

Peço, para te contar
Tudo aquilo que sinto,
Três noites de luar,
Noites serenas, de céu limpo.

Uma noite para que me roubes a voz
Ao te contemplar inebriado
E para que, estando os dois a sós,
Eu te ouça com mais cuidado.

Outra noite para que me cegues,
Para que me tires a visão
E assim, um ao outro entregues
Espantemos a solidão.

Na terceira noite, cego de amor
E mudo de alegria
Poderia expressar, sem pudor
Tudo quanto gostaria

É entrando em contato
Com o seu espírito
Que eu, antes sensato
Deixo de ser tímido.

Amar sempre será, para mim,
Um momento de confissão,
Pois não sei dizer, enfim,
Por que te entreguei meu coração.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O beijo é um grito


         É fato consumado: o beijo é um grito. Em alguns momentos, coisa desesperadora de se presenciar, evento escandaloso, terrível, inoportuno. Quebra a linha de raciocínio, se é que dantes havia algum. Em outros momentos, é uma cena linda de se presenciar. Promove o riso, pois é engraçado presenciar esforço tão sobre-humano para desafiar a monotonia, o cinza das relações cotidianas. Causa certo repúdio, no entanto, presenciar grito cinza, desses sem sabor, sem aroma de vida.
         É fato consumado: o beijo é também um sussurro ao pé do ouvido. É como contar um segredo, com a ressalva de que todos conhecem esse sigilo: como é difícil contar as ranhuras de um lábio. Requer inspeções inúmeras, sempre em silêncio, para não perder a conta.
         O beijo também é... com licença. Que foi, querida? Quer contar novo? Ok, ok... tô indo. Queiram desculpar, mas o dever chama.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O mito do antro comunista

Mais de uma vez ouvi (e tenho quase certeza de que vocês compartilharam de similares experiências) que os cursos de História, Ciências Sociais e Filosofia, dentre outros, são antros de comunistas e que reunião de centro acadêmico de Humanas é praticamente comício do PCB (aqui o partido varia segundo a vontade do crítico, de PT a PCO).
            Pois bem, vamos aos fatos e deixemos de lado a discussão sobre o uso do termo “antro” nessas circunstâncias. Cursei História durante precisos 4 anos e, durante minha estadia na universidade, encontrei aproximadamente – considerando todas as turmas com que tive contato – 10 marxistas (alguns desses eu considero como marxistas com muitas reservas). Se eu fosse mais rigoroso, entrariam talvez 5 ou 6 nessa lista, sendo apenas um deles professor. Aliás, eu só soube que esse professor era marxista depois de terminar o curso, o que mostra, inclusive, a competência do dito docente.
            Para esse cômputo, considerei alunos de 5 turmas. Considerando uma média razoavelmente fiel de 25 alunos por turma, temos 125 alunos, mais 7 professores de História ou Sociologia. Em outras palavras, de 4% a 8% dos colegas de curso e 14% dos professores que conheci eram marxistas.
            Acho fascinante como as pessoas ainda tem essa imagem dos cursos de Humanas. Na boa, de uma turma inicial de 40 alunos, provavelmente 10 vão desistir, 20 não estão nem aí pra coisa toda e só querem o diploma e os 10 restantes se dividem entre várias correntes teóricas. No caso específico da História, existem pelo menos 4 grandes correntes de pensamento, a saber: Positivismo (um tanto ultrapassado), Weberianismo, Marxismo e Annalismo (usa-se também o termo Nova História).
            Até existe uma certa predominância de marxistas em um ou outro curso, mas não chega nem perto da situação dos anos 70, por exemplo. Como Astor Antonio Diehl bem explicou, os anos 1990 e a crise do chamado socialismo real representaram uma forte crise paradigmática (isto é, de valores, padrões, modelos) para os historiadores e, de maneira mais geral, também para as demais ciências humanas.

            Eu realmente lamento se suas aulas de História no Ensino Básico foram marcadas exclusivamente por leituras do Manifesto Comunista, A Ideologia Alemã e afins, mas essa não é a pegada da universidade. Você ainda poderia dizer: ah, mas eu nunca vi um livro do Weber, do Durkheim, do Marc Bloch ou do Carlo Ginzburg na biblioteca da escola. Bom, se você se coçar um pouco, vai descobrir que tampouco será fácil encontrar O Capital nessa mesma biblioteca. Além disso, é de se perguntar: você leria A Ética Protestante, O Suicídio, Apologia da História ou Olhos de Madeira caso os encontrasse em uma estante? Dificilmente.