O
papel me encara, a superfície aparentemente plana escondendo as rugosidades
sedentas de umidade. Seu olhar silencioso me incomoda bastante e devo admitir
que me sentiria melhor se o ambiente estivesse mais agitado, ainda que os
únicos sons a serem ouvidos fossem de tortura.
De
qualquer forma, a angústia do momento se revela na dúvida primordial de manter
a existência daquele espaço vazio ou de preenchê-lo com algo que se possa
nomear, nalguma expressão feliz, vida. De toda forma, a decisão não me
pertence, não a mim, Razão. Embora seja eu a soberana dos frios domínios do
Lobo Central, há momentos em que o corpo necessita de dominações mais...
carismáticas.
Uma
faca de cozinha é o suficiente. Um corte limpo no antebraço, apenas amplo o
bastante para que saiam algumas gotas da “água da vida”. Cada partícula de
sangue leva consigo um pedaço do meu ser, sempre acolhido com calidez pela
simplória folha de papel. Quem diria? Seu olhar não me parece mais tão gélido.
Na verdade, seu silêncio agora me parece bastante gentil, já que, pelo menos,
não ouço duras críticas ao que acabo de escrever.
Escrever
é uma tarefa sempre interessante e, a meu ver, é uma das oportunidades mais sensacionais
de mostrar seu desapego pelas coisas. De fato, nesse exato momento estou
abdicando da privacidade da coisa mais particular que um dia posso sequer
sonhar em ter: meu pensamento.
