terça-feira, 26 de junho de 2012

Uma gota de sangue



             O papel me encara, a superfície aparentemente plana escondendo as rugosidades sedentas de umidade. Seu olhar silencioso me incomoda bastante e devo admitir que me sentiria melhor se o ambiente estivesse mais agitado, ainda que os únicos sons a serem ouvidos fossem de tortura.
            De qualquer forma, a angústia do momento se revela na dúvida primordial de manter a existência daquele espaço vazio ou de preenchê-lo com algo que se possa nomear, nalguma expressão feliz, vida. De toda forma, a decisão não me pertence, não a mim, Razão. Embora seja eu a soberana dos frios domínios do Lobo Central, há momentos em que o corpo necessita de dominações mais... carismáticas.
            Uma faca de cozinha é o suficiente. Um corte limpo no antebraço, apenas amplo o bastante para que saiam algumas gotas da “água da vida”. Cada partícula de sangue leva consigo um pedaço do meu ser, sempre acolhido com calidez pela simplória folha de papel. Quem diria? Seu olhar não me parece mais tão gélido. Na verdade, seu silêncio agora me parece bastante gentil, já que, pelo menos, não ouço duras críticas ao que acabo de escrever.
            Escrever é uma tarefa sempre interessante e, a meu ver, é uma das oportunidades mais sensacionais de mostrar seu desapego pelas coisas. De fato, nesse exato momento estou abdicando da privacidade da coisa mais particular que um dia posso sequer sonhar em ter: meu pensamento.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

E se...




Já faz tanto tempo que não escrevo... especialmente sobre algo corriqueiro e descontraído. Será que ainda levo jeito? Será que essa casca de frieza e impessoalidade que eu tenho mantido nos últimos anos já me consumiu? Veremos. Ou melhor, vocês verão.
Dor. Felicidade. Arrependimento. Ciúmes. Raiva. Amor. Às vezes fico me perguntando se nós, meros humanos, possuímos sentimentos ou se eles nos possuem. Se o homem é bom ou mau. Se vale a pena viver. Se o mundo teria sido diferente nesta ou noutra ocasião. Se, se, se... é impressionante como nossas vidas giram em torno de uma palavra tão pequena. Duas letras, duas opções, uma grande angústia por não saber o que está (ou estava) além de nossas escolhas.
Os historiadores que me perdoem, mas, pelo menos no meu caso, o presente não é um resultado de fatos do meu passado. Não, o passado é simples demais, seria esperar muito que a vida fosse tão previsível. Não, sou a personificação de meus arrependimentos, de minhas não-escolhas, de meus não-amores, de minha não-outra vida. E se... (suspiro), ah, Deus, e se eu tivesse sido mais corajoso, mais gentil, mais sábio, mais alternativo. E se eu não soubesse de nada disso, e se eu fosse uma pessoa simples, ignorante dessas questões, não teria sido mais fácil? Não teria havido menos dor, menos dúvidas, menos angústia? Não teria havido menos amor, que machucou mais do que tudo nessa vida?
Claro, tudo isso deve ser apenas um delírio de uma mente perturbada, ou pelo menos é o que vocês torcem pra ser, não é mesmo?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Seja feliz em várias línguas (faz sentido?)



            Percebi que ultimamente esse espaço virtual tem apresentado uma tendência a dar voltas em torno dos mesmos temas: moral, amor e pequenas estórias. Não estando muito conformado com a situação, tentei pensar em algo diferente. Vamos ver o que saiu dessa reflexão.
            Faz uns dois ou três dias, verificando empiricamente a validade da lei universal a qual diz que há horas em que não passa nada decente na TV (mesmo que você tenha 4387609 canais à disposição), estava eu a assistir a um filme aleatório. Não me interessei muito pelo enredo, que tinha alguma coisa a ver com terroristas, blá blá blá e tal, mas antes de desistir de vez da televisão, ouvi de um dos personagens a seguinte frase: “Em que idioma você sonha?”.
            Essa pergunta é particularmente difícil para mim, já que raríssimas são as vezes em que eu me lembro dos meus sonhos, mas essa não é a questão que eu quero levantar. O filme apenas me lembrou de algumas das vantagens de se aprender uma nova língua.
            Tradicionalmente, os argumentos para convencer alguém a iniciar um curso de línguas giram em torno de questões financeiras como melhor qualificação no mercado de trabalho, estudos de mestrado e doutorado, intercâmbios e assim por diante. Não duvido que essas questões tenham certa relevância na sociedade capitalista em que vivemos, no entanto, pelo menos para mim, esses motivos são secundários.
            Se você quer realmente aprender um idioma e mantê-lo vivo na sua cabeça, basta encontrar um motivo mais forte que o econômico: uma razão ideológica. Encontre algo que você deseje desesperadamente e que, ao mesmo tempo, exija o conhecimento de determinada língua. Por exemplo, o que facilitou meu aprendizado de inglês foi tentar ler os livros da série Diablo, já que eu me forçava a estudar para conseguir ler as histórias (que, por sinal, estão entre as minhas preferidas).
            Resumindo, deixe os seus preconceitos de lado, dê um sem pulo na preguiça e conheça uma nova língua. Se você não sabe por onde começar, aqui vai uma dica: estude francês. Nem muito comum, nem muito exótico. Tenha acesso a uma vasta literatura e a bandas que você nunca ouviu falar e faça um favor ao seu cérebro: é impressionante como o nosso vocabulário cresce com esse tipo de atividade.
            E antes que alguém pergunte: não, não precisa fazer biquinho pra falar francês. Biquinho a gente faz em foto pra dar risada depois. Não ficou convencida(o)? Que tal tentar achar a sua motivação na música? Seguem dois vídeos, um de rock alternativo e outro de chanson (semelhante ao que seria a MPB no Brasil). Au revoir et un bon jour par tous les vous!



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Promessas



              Odeio fazer promessas. Simples assim, sem muitos pormenores. Seria uma postagem com bastante significado embutido e certeiramente a mais curta desse praticamente recém-nascido blog. Claro que também traria, provavelmente, muitas interpretações indesejadas, além de não me trazer lá muita satisfação pessoal durante o ato de escrever. Obrigo-me, portanto, a explorar mais essa minha afirmação inicial.
            Uma das cenas mais batidas de filmes – com destaque notório, neste quesito, para as películas de Hollywood – é aquela em que, dada uma situação de desespero, expectativa ou algo do gênero, uma personagem (entendam essa terminologia como assexuada) declara: “Vai ficar tudo bem, eu prometo.”. Pode parecer ridículo, mas às vezes eu tenho nojo desse tipo de personagem.
            Tudo bem, admito que posso estar sendo um pouco intolerante com os mecanismos de catarse padronizados pelo cinema norte-americano, mas o fato é que simplesmente não me convém aceitar que uma pessoa possa fazer um juramento de maneira tão banal. Pelo menos de minha parte, creio que poderia contar nos dedos de uma das mãos quantas vezes prometi algo a alguém (e sobrariam dedos), já que o fato de se prender de maneira tão forte a uma tarefa exige uma convicção bastante sólida de que será possível superar os obstáculos à execução desta. Dificilmente tenho esse tipo de convicção.
            Alguém poderia argumentar que, na verdade, vivemos fazendo promessas, embora não digamos isso com todas as palavras. Nessa perspectiva, toda vez que dizemos, por exemplo, “amanhã a gente se vê”, estamos a firmar um compromisso. Concordo, entretanto, existe um abismo entre os termos “compromisso” e “promessa” ou “juramento”. Se as pessoas soubessem essa diferença, creio que muitos problemas poderiam ser evitados, já que outros mecanismos de facilitação de comunicação como, digamos, aparelhos que produzam em tempo real legendas daquilo que alguém está dizendo, ainda não foram inventados.
            Em outras palavras, na ausência de soluções supra-humanas, somos condenados a encontrar soluções paliativas para nossos problemas de comunicação. Que tal, portanto, fazermos uma promessa e falarmos tão claramente quanto conseguirmos? Acho que para isso eu tenho convicção suficiente.