A pradaria contemplava
impassível a cena que se estendia a sudeste e a noroeste de seus limites. A um
lado, um exército pálido e doentio, mal se sustentando sobre as próprias pernas
(há de se levar em conta que as passagens sinuosas das Montanhas do Cadafalso,
a norte dali, eram bastante desgastantes para o viajante desavisado). De outro
lado, uma milícia quase uniformemente negra, coberta quase até o pescoço de uma
substância tão repugnante que, a fins eufemísticos, devemos chamar piche (uma
pequena lembrança dos Pântanos da Miséria).
Um
instante que pareceu durar horas se estendeu enquanto duas almas ferozes se
encaravam, um momento digno de sua longevidade, visto que não é todo dia que
dois reis se veem diante de tal panorama. Quisera a vida ser tão bela quanto os
olhares desses dois homens eram determinados.
Um
aceno de mão foi o suficiente para dar início à tão esperada peleja, embora
talvez seja necessário acrescentar certos requintes descritivos ao termo
“esperada”. Se em algum momento a esperança surgiu na mente de um dos infelizes
seres humanos ali presentes foi para encher seus corações de imagens de uma
morte rápida ou de uma volta segura para casa.
Embora
seja difícil de crer, nenhum daqueles homens ali estava por instinto belicoso
ou por ganância. Como marionetes, os soldados se moviam, sempre em frente,
guiados por um sentido maior o qual, ironia (e quiçá cinismo) do destino, era o
mesmo para ambos os lados: paz. Talvez esse fosse o fato mais cruel e doloroso
a se presenciar naquela tarde de outono: o que se pode dizer quando o ideal
mais puro se torna o meio mais eficaz para a existência de um banho de sangue?
É
de se pensar que algumas mentes torturadas por esse pensamento ali presentes
estivessem ali de bom grado. Melhor ter uma lança cravada em seu pescoço e
enfim poder ter um motivo real para não conseguir engolir sua saliva.
A
batalha lentamente começou a se desenvolver. O desgaste trouxe consigo a
cautela e esta, consigo, a estratégia. Nada que pudesse evitar de todo o que
estava por vir. A cada vida retirada, lágrimas de sangue manchavam a relva,
lágrimas estranhas a verter não dos olhos, mas de perfurações e cortes
hediondos.
Pouco
mais de uma hora foi necessária para que, depois de tantas mortes, o ferro do
sangue fosse mais abundante que o das armas. Pouco mais de uma hora para que a
sensatez fosse maior que o pudor, a resignação maior que o orgulho. O rei
branco entrega seu cetro. Está encerrada mais uma partida de xadrez.