sábado, 30 de março de 2013

Sombras da honra



A pradaria contemplava impassível a cena que se estendia a sudeste e a noroeste de seus limites. A um lado, um exército pálido e doentio, mal se sustentando sobre as próprias pernas (há de se levar em conta que as passagens sinuosas das Montanhas do Cadafalso, a norte dali, eram bastante desgastantes para o viajante desavisado). De outro lado, uma milícia quase uniformemente negra, coberta quase até o pescoço de uma substância tão repugnante que, a fins eufemísticos, devemos chamar piche (uma pequena lembrança dos Pântanos da Miséria).
            Um instante que pareceu durar horas se estendeu enquanto duas almas ferozes se encaravam, um momento digno de sua longevidade, visto que não é todo dia que dois reis se veem diante de tal panorama. Quisera a vida ser tão bela quanto os olhares desses dois homens eram determinados.
            Um aceno de mão foi o suficiente para dar início à tão esperada peleja, embora talvez seja necessário acrescentar certos requintes descritivos ao termo “esperada”. Se em algum momento a esperança surgiu na mente de um dos infelizes seres humanos ali presentes foi para encher seus corações de imagens de uma morte rápida ou de uma volta segura para casa.
            Embora seja difícil de crer, nenhum daqueles homens ali estava por instinto belicoso ou por ganância. Como marionetes, os soldados se moviam, sempre em frente, guiados por um sentido maior o qual, ironia (e quiçá cinismo) do destino, era o mesmo para ambos os lados: paz. Talvez esse fosse o fato mais cruel e doloroso a se presenciar naquela tarde de outono: o que se pode dizer quando o ideal mais puro se torna o meio mais eficaz para a existência de um banho de sangue?
            É de se pensar que algumas mentes torturadas por esse pensamento ali presentes estivessem ali de bom grado. Melhor ter uma lança cravada em seu pescoço e enfim poder ter um motivo real para não conseguir engolir sua saliva.
            A batalha lentamente começou a se desenvolver. O desgaste trouxe consigo a cautela e esta, consigo, a estratégia. Nada que pudesse evitar de todo o que estava por vir. A cada vida retirada, lágrimas de sangue manchavam a relva, lágrimas estranhas a verter não dos olhos, mas de perfurações e cortes hediondos.
            Pouco mais de uma hora foi necessária para que, depois de tantas mortes, o ferro do sangue fosse mais abundante que o das armas. Pouco mais de uma hora para que a sensatez fosse maior que o pudor, a resignação maior que o orgulho. O rei branco entrega seu cetro. Está encerrada mais uma partida de xadrez.

terça-feira, 19 de março de 2013

Sobre investigações


            
           Resolvi fazer um texto de pira filosófica, só pra descontrair um pouco. Por onde seria mais seguro começar?
            Em certo grau, concordo com um certo amigo meu que no campo das teorias da História chegou-se a um ponto de produção literária saturada, o famoso mais do mesmo em cada livro a ser lido. Gostaria, dito isso, de apresentar algumas considerações as quais, embora não originais ou revolucionárias, são, no mínimo, raras.
            Estamos bastante acostumados com o termo “crono” em nosso cotidiano. Cronologia, cronômetro, crônico, etc. Isso por que o termo grego “khronos” simboliza a passagem quantificada e exata do tempo, um sentido bastante palpável e fácil de apreender. Entretanto, poucas pessoas sabem que há duas palavras para tempo em grego. O outro termo é “kairos”, isto é, o tempo impossível de ser contado, o instante de perfeição, o momento decisivo, o instante eterno.
            Como podemos ver, um termo bastante abstrato e, ainda assim, aparentemente bastante apropriado para determinadas áreas do conhecimento. Tomando nota desse termo, podemos dizer de forma acurada que o termo “cronologia” é apropriado à história, nos moldes a que esta se propõe?
            Mesmo o mais ortodoxo positivista, em seu zelo pelo rigor de datas e fatos, assim como pela determinação exata de fenômenos de estática e dinâmica social, precisaria admitir que o que a História sempre buscou foi uma “cairologia”, com o perdão do neologismo. Os fatos são importantes, mas quais fatos? O dia-a-dia cíclico, preciso, quase planejado? Ou os momentos de tensão em que algo especial acontece?
            Deixo a analogia da aceitação do “kairos” em outras teorias para sua imaginação. Finalizo apenas com uma pergunta: se a História é uma ciência dos homens no tempo, de qual tempo estamos falando?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ao progenitor


Olá, senhor meu pai,
Deve com certeza se lembrar
Que eu nunca disse um “ai”
Quando, a crescer e desabrochar
Descobri-me, antes de tudo, gente
De condição difícil, deprimente.

Como muitas crianças
Era um sonhador nato
Mas minhas esperanças
De fazer do sonho, fato,
Pareciam ser tão distantes
Como São Paulo, dos retirantes.

Ah! Quase doces tempos de infância,
Época de muitos amigos,
Lar de processo que, em última instância,
É dito, desde tempos antigos,
Como o emocionante prólogo da vida
Pelo destino e pelo Estado carcomida.

Sem dúvida digno de nota
Foi determinado evento
Em que tu, à beira da bancarrota
E eu, cheio de alento
Conversamos a respeito de uma bola
Depois de chegado eu da escola.

De experiência eu carecia
Mais do que de dinheiro
O senhor tristemente padecia
E por isso, sorrateiro
Depois de uma lição de vida
Desisti de minha bola querida.

De chorar nunca tive muita vontade
Mas percebi que pior que apanhar
Era ver nos olhos de alguém a verdade
E ao mesmo tempo a vontade de calar.
Naquele dia a lágrima que derramei
Saiu dos olhos do pai que tanto amei.

Não pudeste me encarar
Ao me pedir que trabalhasse.
Não pude senão aceitar
Tarefa que te ajudasse.
E ao fim de um ano, mais uma lágrima
Mas desta vez não por uma lástima.

Um momento de glória
Ao comprar um pedaço de couro
O qual minha curta memória
Teima em ver em tons de ouro.
E no dia seguinte, como noutro qualquer
Levantei cedo para exercer o mister.

Desde então, sem nunca me saciar
Novas conquistas venho buscando:
Estudar, amar, muitas vidas salvar.
Será que seria justo, delirando,
Almejar algo ainda mais grandioso?
Dar voz a um último desejo fogoso?

Nesse momento, preciso acreditar que sim.
Por que eu tenho um sonho
Guardado em segredo dentro de mim.
E desde já me proponho
A fazer de você, pai, uma pessoa feliz
Dando a você o filho que sempre quis.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O poder de ser bom (só que não)


Estes dias me peguei a pensar sobre algumas possíveis metáforas para tornar meu pensamento mais facilmente compreensível em futuras conversas. É conveniente, a princípio, ter um mote para a exposição de meu pensamento e para isso usarei um tema relativamente recorrente em discussões informais.
            Provavelmente já devem ter ouvido alguma afirmação do tipo “Bando de políticos safados. Se eu estivesse no poder faria alguma coisa decente.”. Será mesmo? Seria possível fazer um teste para verificar a existência dessa vontade de fazer o bem (segundo a concepção utilitarista)? Acredito que sim. De fato, existe um cenário ideal para isso.
            Coloque uma pessoa em um recinto fechado (representando um escritório em potencial), com a possibilidade de tomar muitas decisões de risco que afetarão a todos dentro de uma determinada esfera de influência (representando uma condição de poder). Dê a essa pessoa a capacidade de escolher entre o benefício individual e o benefício geral (chamaremos isso de base moral). Submeta essa pessoa à pressão e eventualmente ao ódio de outras pessoas (os ossos do ofício) e, finalmente, dê a esse lugar o nome de trânsito. Veja o que acontece.
            Você está apto a ser um político? Pense a respeito.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Veritas




Lá estava ela novamente. Quantas vezes havia acontecido? Já tinha perdido a conta várias vezes. Era necessário se apegar a algo novamente, criar raízes, criar um senso de fé, no sentido latino da palavra*, mais profundo do que aquele que se cria habitualmente entre as pessoas. Ou talvez a confiança nas pessoas fosse a grande chave para lanças as bases de uma moralidade adequada.
Decidiu caminhar, de maneira despretensiosa e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fria e calculista. Sabia, ou preferira acreditar, que atividades rotineiras eram capazes de despertar sentimentos inesperados nas pessoas, ativando áreas inusitadas do cérebro.
Passeando, enfim, no limite entre a consciência e o andar dos segredos da mente, percebeu um padrão estranho em uma árvore à distância. Estranho por ser familiar e ao mesmo tempo quase inacreditável. Por um instante, pensara ter visto a si mesma nas ranhuras da casca da inocente pereira.
Seu ceticismo, muito aguçado nos últimos dias, lembrou-lhe de um velho termo que aprendera na faculdade: pareidolia. Olhou mais uma vez: a imagem já parecia um pouco difusa, embora suficientemente clara para seu humano, demasiadamente humano cérebro. Ele teimava em lhe dizer que havia um sentido oculto naquela situação.
Decidiu voltar para casa e refletir pausadamente sobre o assunto. O resto do dia, entretanto, não trouxe resultados muito alentadores. Não, nenhuma outra pareidolia, ou epifania ou glossolalia. O universo, aparentemente, decidira por bem permanecer em silêncio perante os sofrimentos de mais uma minúscula jovem.
Não conseguira dormir. Ao menos uma prova de que sua humanidade não lhe abandonara o corpo juntamente a suas certezas. Tentou comer e seu estômago se revirou. Tentou beber e sua garganta se fechou. Tentou ler e sua visão, já turva, a abandonou.
Como era possível que as pessoas pudessem viver assim? Observava os rostos aleatórios da rua movimentada e não compreendia aquela miscelânea de faces, umas sorridentes, outras impassíveis e outras abatidas, mas de algum modo todas determinadas. Bando de tolos, nem sequer conhecem o sabor da angústia.
Foi à farmácia e comprou “certo” medicamento. Sim, certo por que indefinido em sua frieza e certeiro em seus efeitos. Dose suficiente para fazer o serviço várias vezes. Olhou mais uma vez para a rua, perplexa. Será que era essa a verdade que tanto procurara? Que a vida simplesmente não faz sentido? Aparentemente sim, embora o sentimento de achar uma nova verdade não tivesse sido tão agradável como se lembrava. Bom, isso não dependia dela.
Duas horas se passaram. Ouviram-se batidas na porta. Provavelmente seu avô, que costumava visitá-la ocasionalmente. Ele tinha a chave (era uma das poucas pessoas em quem ela confiava) e entrou despreocupadamente. Percebeu-a já sem pulso, sem vida.
Mais uma verdade havia se suicidado. Curiosamente, no entanto, a moça sabia que mais uma apareceria em seu lugar. Lembrou-se do que seu avô lhe dissera uma vez: “acho que a verdade é meio espírita: quando você acha que ela morreu ela volta mais nova e com outra cara”.

* fides: termo jurídico romano que indica situação de pacto e confiança mútua.