segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Enquanto isso, em Cascavel



Tudo bem, eu sei que já fiz uma postagem criticando as generalizações e tudo o mais, mas sátiras e críticas se tornam, a meu ver, mais interessantes quando se consegue usar algumas ferramentas da língua portuguesa, seja a generalização, a hipérbole, ou o que convenha ao momento. É isso que tira um pouco a seriedade do texto e nos permite algumas abstrações interessantes.
Não sei quanto a vocês, mas para mim é deprimente passar por uma feira de livros e não encontrar UM sequer que me atraia e me incentive a comprá-lo. Pra ser franco, isso está acontecendo com uma frequência preocupante comigo ultimamente e me forço a perguntar qual o sentido dessa situação. Usando de um pouco de liberdade literária, resolvi elaborar uma hipótese simples e que, se correta, demonstra um contexto social repreensível.
Autores bons não são raros, mas editoras grandes o são. Logo, embora haja muitos livros bons, há poucos que podem ser publicados a bons preços. Feiras de livros oferecem livros baratos, mas livros baratos não são comuns. Logo, feiras de livros oferecem poucos livros. Livros baratos não são comuns e livros bons em geral não são baratos, logo livros bons baratos são raros. Conclusão: livros bons são raros em feiras. Faz sentido? Tirem suas próprias conclusões e, por favor, não levem tão a sério o que eu escrevi. Afinal de contas, a proposta deste espaço é justamente servir de exercício mental a quem quer que o leia (ou escreva, é evidente).

domingo, 28 de outubro de 2012

Cidadania

Cidadania, palavra de origem grega cuja etimologia denuncia um significado próximo a "condição relativa à cidade". Claro, como bem se sabe, palavras tem seu sentido alterado ao longo do tempo e seria equivocado usar a etimologia para expressar as emoções do cidadão contemporâneo. Além disso, não é mais um privilégio (ou seria um ônus?) do habitante das cidades vislumbrar os desdobramentos das relações de poder "democráticas".
Na verdade, desde que me entendo por gente, poucas foram as vezes em que me senti um cidadão, na concepção moderna do termo. De fato, na falta de um termo melhor, sinto-me um "bestializado", como diria José Murilo de Carvalho. Não sinto nem apatia nem tédio frente à situação de minha cidade, meu estado ou minha nação, mas, ainda assim, sinto-me impotente e velho. Como é duro ser brasileiro.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Apenas ao tocá-la

 Já não era possível conter aquele desejo ardente que o vinha assolando há tempos. Ultimamente viera arranjando desculpas para não se aproximar, afinal, havia coisas mais importantes que mereciam prioridade. Não mais - pensou. Não hoje.
Aproximou-se com certo receio, sem saber exatamente o que fazer, esperando como que um sinal para guiá-lo em suas ações. Ela, como de costume, silenciosa a um canto, olhando-o pelo canto do olho, ou pelo menos assim ele pensava. No final, planejar as ações não importava muito.
Os primeiros minutos passaram lentamente, em movimentos fluidos. Se antes havia algo que a envolvesse, agora seu corpo era plenamente visível; as curvas, antes insinuantes, agora delatoras de uma sintonia de que ele próprio mal conseguia se lembrar.
Aos poucos, o que era uma dança estudada e melódica se tornou um frenesi. Movimentos bruscos e cada vez mais velozes geravam gemidos agudos e profundos de sua companheira, cortando o ar da noite cálida. A harmonia já não importava, nada mais importava, até que... num movimento longo e cansado, tudo acabou.
Com um sorriso estampado no rosto, esperou até que seu coração parasse de palpitar tanto. Por fim, recomposto, cobriu-a novamente e a deixou descansando a um canto. Como era bom poder tocar sua rabeca novamente.