A necessidade de admitir para mim mesmo que não posso falar por todos os escritores se me apresenta de maneira mais evidente que a própria gravidade. Entretanto, arrisco dizer que esse ofício amador (por que mesmo quando profissional ama-se o que se está fazendo) implica na existência de um ego forte, o que, por vezes, incita a inveja em nossos corações ao vermos um texto de leitura fruitiva. Penso que vale a pena abdicar um pouco de meu orgulho e publicar para vossa apreciação um texto de autoria do escritor francês Martin Page, mais especificamente de sua obra "Como me tornei estúpido", cuja leitura, aliás, recomendo enfaticamente (algo em torno de 75 páginas, ou, como algumas pessoas gostam de medir, 3 ou 4 idas ao banheiro).
A cena se passa em uma reunião de suicidas
fracassados e/ou em potencial.
"- Mas isso tudo são
futilidades. Chega-se a essa conclusão, pensa-se nisso, a encontrar certa
nobreza, uma sublimação, uma legitimação, uma transcendência, sei lá... a
ilusão de um absoluto chamado morte ou liberdade que gostaríamos de fazer
coincidir com uma igualdade perfeita. A verdade... a minha verdade - tenho de
ser clara, falo de mim - é que estou doente. Um câncer achou que o meu corpo
seria uma bela ilha paradisíaca e ali ele passa as suas férias, com os pés no
oceano do meu sangue, bronzeando-se sob o sol do meu coração... Ele não tem
necessidade de barraca, ele zomba dos raios do sol. As suas férias remuneradas
consistem em me fazer morrer. Sofro atrozmente... Todos vocês sabem do que
estou falando. Para não me contorcer de dor, sou obrigada a tomar injeções de
morfina, a abarrotar-me de analgésicos... - do bolso interno do paletó, ela
tira um pequeno vidro de medicamentos e o agita. - Isso tem um preço, o preço
da minha consciência. Eu tenho controle sobre minha cabeça, mas isso corre o
risco de não durar e por isso prefiro eliminar-me enquanto ainda sou
"eu", antes de me deixar retalhar por um médico, estendida sem consciência
numa mesa de cirurgia. É uma pequena liberdade, uma liberdade miserável. Se
vocês estão aqui, é por que vocês também tem, sem dúvida, cânceres orgânicos ou
cânceres da alma, tumores sentimentais, leucemias amorosas e metástases sociais
que os corroem. E é isso o que determina nossa escolha, muito mais que qualquer
grande ideia a respeito da nossa liberdade. Sejamos francos: se gozássemos de
boa saúde, se fôssemos amados como merecemos, considerados, com um belo lugar
na sociedade, estou certa de que esta sala estaria completamente vazia."