quarta-feira, 25 de julho de 2012

Plástico


-Imundo, sujo...
-Que se passa?
-Não sei, apenas fujo...
- Não há aqui pirraça.
-De fato, mas fujo é da fome...
-Não se resolve com comida?
-Não é bem isso que me consome.
É como uma ferida
Aberta em minha carne.
-Que pode ser esse alarme?
-Explicar não sei...
-Peço-lhe que tente...
-Pois bem, fá-lo-ei.
É como se minha mente
Fosse cortada pelo aço
E asfixiada pelo carvão
Não sei o que faço
Mal consigo ficar são
Com esse petróleo em meu sangue
Meu esterilizado coração
Eu quero ir ao mangue
Me enfiar no sertão
Para acabar com essa dor
Que não tem cheiro, nem face, nem cor
Que é como plástico
Que mata quieto, tácito.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Admitindo influências

          A necessidade de admitir para mim mesmo que não posso falar por todos os escritores se me apresenta de maneira mais evidente que a própria gravidade. Entretanto, arrisco dizer que esse ofício amador (por que mesmo quando profissional ama-se o que se está fazendo) implica na existência de um ego forte, o que, por vezes, incita a inveja em nossos corações ao vermos um texto de leitura fruitiva. Penso que vale a pena abdicar um pouco de meu orgulho e publicar para vossa apreciação um texto de autoria do escritor francês Martin Page, mais especificamente de sua obra "Como me tornei estúpido", cuja leitura, aliás, recomendo enfaticamente (algo em torno de 75 páginas, ou, como algumas pessoas gostam de medir, 3 ou 4 idas ao banheiro).

A cena se passa em uma reunião de suicidas fracassados e/ou em potencial.
"- Mas isso tudo são futilidades. Chega-se a essa conclusão, pensa-se nisso, a encontrar certa nobreza, uma sublimação, uma legitimação, uma transcendência, sei lá... a ilusão de um absoluto chamado morte ou liberdade que gostaríamos de fazer coincidir com uma igualdade perfeita. A verdade... a minha verdade - tenho de ser clara, falo de mim - é que estou doente. Um câncer achou que o meu corpo seria uma bela ilha paradisíaca e ali ele passa as suas férias, com os pés no oceano do meu sangue, bronzeando-se sob o sol do meu coração... Ele não tem necessidade de barraca, ele zomba dos raios do sol. As suas férias remuneradas consistem em me fazer morrer. Sofro atrozmente... Todos vocês sabem do que estou falando. Para não me contorcer de dor, sou obrigada a tomar injeções de morfina, a abarrotar-me de analgésicos... - do bolso interno do paletó, ela tira um pequeno vidro de medicamentos e o agita. - Isso tem um preço, o preço da minha consciência. Eu tenho controle sobre minha cabeça, mas isso corre o risco de não durar e por isso prefiro eliminar-me enquanto ainda sou "eu", antes de me deixar retalhar por um médico, estendida sem consciência numa mesa de cirurgia. É uma pequena liberdade, uma liberdade miserável. Se vocês estão aqui, é por que vocês também tem, sem dúvida, cânceres orgânicos ou cânceres da alma, tumores sentimentais, leucemias amorosas e metástases sociais que os corroem. E é isso o que determina nossa escolha, muito mais que qualquer grande ideia a respeito da nossa liberdade. Sejamos francos: se gozássemos de boa saúde, se fôssemos amados como merecemos, considerados, com um belo lugar na sociedade, estou certa de que esta sala estaria completamente vazia."

terça-feira, 10 de julho de 2012

Aos grandes poetas

Feliz por ouvir tão bela poesia
Triste por não poder, um dia
Chegar ao nível de quem
Compôs esse belo adágio
Sem vestígio de plágio
E que, nesse vai e vem
De estilos literários
Não se abala, não se cansa
E, ao invés disso, dança
Com palavras e dicionários.

Sua letra enfeitiça
Dá um golpe de espada
No coração da razão
Que como uma treliça
De pedra lapidada
Desmorona ao chão.

Grande poeta,
Já foste mero homem
Ou simplória mulher
Já foste jovem
Refém de seu mister
Ou de sua juventude
Vivendo ao máximo
A tolice e a virtude.