quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O mito do antro comunista

Mais de uma vez ouvi (e tenho quase certeza de que vocês compartilharam de similares experiências) que os cursos de História, Ciências Sociais e Filosofia, dentre outros, são antros de comunistas e que reunião de centro acadêmico de Humanas é praticamente comício do PCB (aqui o partido varia segundo a vontade do crítico, de PT a PCO).
            Pois bem, vamos aos fatos e deixemos de lado a discussão sobre o uso do termo “antro” nessas circunstâncias. Cursei História durante precisos 4 anos e, durante minha estadia na universidade, encontrei aproximadamente – considerando todas as turmas com que tive contato – 10 marxistas (alguns desses eu considero como marxistas com muitas reservas). Se eu fosse mais rigoroso, entrariam talvez 5 ou 6 nessa lista, sendo apenas um deles professor. Aliás, eu só soube que esse professor era marxista depois de terminar o curso, o que mostra, inclusive, a competência do dito docente.
            Para esse cômputo, considerei alunos de 5 turmas. Considerando uma média razoavelmente fiel de 25 alunos por turma, temos 125 alunos, mais 7 professores de História ou Sociologia. Em outras palavras, de 4% a 8% dos colegas de curso e 14% dos professores que conheci eram marxistas.
            Acho fascinante como as pessoas ainda tem essa imagem dos cursos de Humanas. Na boa, de uma turma inicial de 40 alunos, provavelmente 10 vão desistir, 20 não estão nem aí pra coisa toda e só querem o diploma e os 10 restantes se dividem entre várias correntes teóricas. No caso específico da História, existem pelo menos 4 grandes correntes de pensamento, a saber: Positivismo (um tanto ultrapassado), Weberianismo, Marxismo e Annalismo (usa-se também o termo Nova História).
            Até existe uma certa predominância de marxistas em um ou outro curso, mas não chega nem perto da situação dos anos 70, por exemplo. Como Astor Antonio Diehl bem explicou, os anos 1990 e a crise do chamado socialismo real representaram uma forte crise paradigmática (isto é, de valores, padrões, modelos) para os historiadores e, de maneira mais geral, também para as demais ciências humanas.

            Eu realmente lamento se suas aulas de História no Ensino Básico foram marcadas exclusivamente por leituras do Manifesto Comunista, A Ideologia Alemã e afins, mas essa não é a pegada da universidade. Você ainda poderia dizer: ah, mas eu nunca vi um livro do Weber, do Durkheim, do Marc Bloch ou do Carlo Ginzburg na biblioteca da escola. Bom, se você se coçar um pouco, vai descobrir que tampouco será fácil encontrar O Capital nessa mesma biblioteca. Além disso, é de se perguntar: você leria A Ética Protestante, O Suicídio, Apologia da História ou Olhos de Madeira caso os encontrasse em uma estante? Dificilmente.