Certa convenção de sinais
Decerto existe, implícita
Que nos prende, reles mortais
E diz subversiva, quase ilícita
A menção de certo adjetivo
Ao silêncio, termo subjetivo.
Pode-se dizer, usualmente,
“Silêncio caloroso”,
Típico de quem sente
Afeto extremoso
E prefere as ranhuras de um lábio
Às palavras de um gentil sábio.
Entretanto, mais comum
É dizer “silêncio frio”
Desses que qualquer um
Tendo em mãos um fio
De lucidez, de serenidade mórbida,
Rebate uma acusação sórdida.
Descartada a possibilidade
De aderir a uma dessas falas,
O apelo da simplicidade
E da linguagem isenta de gala
Chama-nos a dizer, de modo trivial
Silêncio morno, expressão quase jovial.
Por que morno, dirão?
Por dentro não há fogo,
Sem vestígios de paixão
E por fora nenhum jogo
De intrigas a ser lido,
Nenhum lábio de gelo partido.





