quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cérebro:\Relações Humanas\Paixão, amor e afins


Tinha míseros 21 anos quando o vi pela primeira vez: uma experiência indescritível. O batimento cardíaco acelerou, os músculos fraquejaram, o pensamento repentinamente se tornou mais rápido e desorganizado, a adrenalina era quase insuportável.
            Passei a observá-lo de longe, incrédula de ter encontrado meu destino relativamente tão nova. Estava certa de que aquela seria uma relação para a vida inteira. Algum tempo depois fomos apresentados formalmente e comecei a vê-lo regularmente. Primeiro nos encontrávamos às manhãs e, eventualmente, em algumas noites, mas, com o passar do tempo, as visitas à minha casa se tornaram mais frequentes.
            Depois de alguns anos, não podia passar um dia sequer sem ele. Meus amigos me criticaram, diziam que aquela relação tinha se tornado doentia, que aquela dependência não era normal. Não me importei, eles não entendiam como ele era especial.
            Inseparáveis fomos durante muito tempo, até que surgiu um fator inesperado em minha vida: outro. A princípio fiquei confusa e não sabia o que fazer. Tentei conciliar as duas relações, escondendo um do outro. Entretanto, descobri que não era tão fácil e soube que precisaria fazer uma escolha difícil. Não sei bem como explicar, mas fui compelida a largar tudo o que eu tinha e apostar todas as fichas naquele jovem e encantador rapaz.
            Conversei com meu chefe e ele disse que só precisava assinar alguns papeis que já estaria tudo certo. Não achava que seria tão fácil. Hoje, depois de três anos morando com Marcelo, o tal “fator inesperado”, finalmente compreendo o que meus colegas queriam dizer quando diziam que eu era casada com o trabalho.

sábado, 5 de maio de 2012

Chéri(e)




            
            O ambiente parecia, de alguma forma, convidativo. Não se saberia dizer exatamente o porquê. Talvez tivesse algo a ver com a maneira como as sombras do recinto se moldavam, parecendo tão vivas que quase se esperava que se balançassem com a brisa vinda da janela.
            Havia algo de hipnótico nas silhuetas e, absorto naquela dança de vultos, René levou um pequeno susto ao ouvir alguém chamando. Por um instante maluco, pensou ter sido a sombra a chamá-lo, mas a consciência não tardou a trazê-lo de volta à nem tão mística realidade.
O sofá era modesto, mas nem por isso desconfortável. Na verdade, era um daqueles modelos que alcançam um equilíbrio frágil entre o aconchego e a inquietação, os quais são bastante propícios para assistir filmes, por sinal, já que fica-se acomodado o suficiente para relaxar e atento o suficiente para captar mensagens subliminares. Atividade, aliás, a qual se desenvolvia no local acima descrito.
René tentou se lembrar do que se tratava a película: uma biografia de Édith Piaf, “La môme”, se não lhe falhava a memória. Não era exatamente seu tipo preferido de filme, mas acabara cedendo à persuasão de Nicole. Seus pais haviam viajado e ela lhe dissera que se sentia muito sozinha em casa.
– Nicole... – pensou. De súbito reconheceu a voz que o havia chamado.
– Estou com sono. – repetiu ela, encostando levemente a cabeça em seu ombro.
Ora, afinal não fora tão ruim assim despertar do devaneio. René tentou pensar em algo à altura daquele gesto de afeto, a princípio sem muito sucesso. Não era muito bom com as palavras e parecia que elas simplesmente não acompanhavam seu pensamento. Finalmente, tentando desajeitadamente mover seu braço de modo a abraçá-la e ao mesmo tempo lutando para não gaguejar, disse:
- Descanse sua cabeça em meu peito e deixe que o meu coração a embale.
- Obrigada. É tudo o que eu poderia pedir.
Nenhum dos dois tomou qualquer outra iniciativa. Não era necessário. Não era preciso que houvesse um beijo ou algo mais. Nessa noite, a ternura que emanava daqueles dois seres era o suficiente.
Marion Cotillard seguia sua interpretação na tela e, por um instante, pareceu que a própria Édith Piaf cantava aos dois jovens:
Não, não lamento nada
Pois minha vida
Pois minhas alegrias
Hoje, começam com você
Começam com você...”